Hoje to afim de ler....
Nada como uma Boa Viagem
- Nada, pai.
- Pára, vai... você anda triste há semanas. É fácil notar.
- Tô, né?
- Quer conversar?
- Não sei. Talvez o Sr. não seja a pessoa apropriada.
- Porque então você não chama a Camilinha pra cá? Eu peço uma pizza e vocês conversam.
- O problema é justamente com ela, pai.
- Entendi. Bom, seja lá o que for ela é uma pessoa especial, há anos tem sido uma boa amiga. Pensa bem para vocês não se arrependerem depois.
- Tá vendo? Até você. É melhor eu ficar sozinha, me deixa, vai.
- Ei... não precisa me tratar assim, mocinha, to tentando ajudar. Desde que sua mãe morreu tenho me empenhado ao máximo para estar perto sem invadir seu espaço. Pelo visto vi que venho falhando. Bom... qualquer coisa eu to no quarto. Tem salada na geladeira.
- Desculpa, vai. É que eu to cansada de ver todos os meninos caidinhos por ela só porque beija outras mulheres na escola, transa com quem ela quer, fuma maconha vez ou outra, sempre anda de topless na praia... todo mundo acha ela o máximo.
- filha?
- o que?
- adianta papai dizer que você está enganada?
- Não sei pai, ultimamente tenho pensado em me soltar um pouco mais.
- Filha?
- Oi?
- E aquela viagem de intercâmbio?
Palavras Erradas São Recheadas De Predicados
- Mô?
- Oi?
- Tá acordado?
- Pensativo.
- A gente tá bem, né?
- Claro, linda, por que?
- É que você não fez carinho nela hoje.
- Ué. Você disse que estava com dor de cabeça.
- Mas a dor era na cabeça.
- Mas da última vez que você esteve com dor na cabeça, me evitou o tempo inteiro.
- Mas hoje eu to com dor de cabeça e com vontade de não te evitar.
- Ta bom, Larissa, mas se você está com “vontade” de não me evitar, significa que ainda há uma chance de você me evitar.
- Frouxo.
- Bipolar.
- Brocha.
- Oxiuros.
- Que? Do que você me chamou?
- Nada. Estava pensando naqueles vermes que a gente pega na infância e que dão uma coceira no rabo danada.
- Que coisa mais sem nexo, Gustavo. Aprende a discutir numa boa... para de ser porco.
- Não é nada com você. Tava pensando nas palavras erradas do mundo.
- Quer que eu chame um médico?
- Fala a verdade, você não acha que algumas palavras deveriam ser outras?
- Como assim?
- Oxiúros tem nome de galáxia. É poderoso como o infinito. Deveria abrigar planetas e não a bunda de crianças piolhentas.
- Sabe que eu também já pensei nisso.
- No que?
- Clitóris, por exemplo, tem nome de medicamento. Lambisgóia é um nome super alegre, poderia ser o de uma borboleta, aliás, borboleta deveria substituir o clitóris, você não acha?
- Caramba, linda, aí eu já não sei, é muita informação... vamos mudar de assunto? To com uma saudade da sua borboletinha.
- Engraçadinho. Esqueceu que eu to com dor de cabeça?
O Troco
Nunca se intimidou com os avanços tecnológicos. Sabe lidar muito bem com suas limitações. Basta-lhe a velha máquina de escrever, uma agenda rigorosamente controlada e um sapato que não lhe cause calos para fazê-lo honrar as penosas contas do mês. Quando a situação aperta, Ribamar usufrui da confiança dos velhos amigos do Leme Tênis Clube, que volta e meia lhe emprestam dinheiro, com a certeza do retorno.
Entre um aperto e outro, Ribamar vai caindo, levantando e sobrevivendo. Sua vida sempre fluiu em suportável conformidade até descobrir que acabara de tomar um calote na transação de um três quartos em Copacabana, cujo comprador ele mesmo tinha arranjado. Vendo-se sem direção e necessitando de dinheiro para pagar os amigos do clube, Ribamar passa a suplicar ao proprietário que, apesar de ser um executivo do ramo farmacêutico, bem sucedido e quarenta anos mais novo, ambiciosamente ignora seus apelos.
Desesperado, Ribamar resolve ameaçá-lo por telefone, o resultado se traduzia em inúmeras risadas que deixavam o velho inconsolável. Afinal, quem se intimidaria com um senhor no fim da vida, magro, corcunda e ainda por cima íntegro e honesto?
Percebendo que seria impossível receber a comissão de 30 mil Reais que lhe era de direito, Ribamar contrata um advogado que sabiamente propõe um almoço entre as partes para que juntas possam chegar a um acordo comum.
12:30 – O almoço.
Todos compareceram ao restaurante Bar do Porto. Ribamar, sisudo como nunca, fez questão de carregar um olhar pra lá de ameaçador enquanto seu advogado mantinha-se concentrado em aplicar sua política típica dos que sabem resolver impasses. O Executivo, sonso como de costume, chegou mais tarde. Para surpresa de todos carregando seu filho grande e musculoso cuja feiúra é mais agressiva do que o ar de lutador que ele insistia em impor ao velho Ribamar no intuito de fazê-lo desistir da grana.
12: 40 – O advogado dá início à reunião:
- Bom, sabemos que por lei deveria haver um repasse de 5% sobre a venda do apartamento para o meu cliente. Gostaria de saber, senhores, como podemos resolver esta situação de uma forma amena, sem que seja necessário recorremos aos tribunais.
Eis que o musculoso filho interrompe o advogado:
- Em primeiro lugar, quero que o Sr. saiba que este velho caquético que você defende vem ameaçando meu pai e xingando minha família. Vim aqui apenas pra dizer a ele que se ele conti ...
Antes que o garotão prosseguisse a verborréia, é surpreendido pelo velho Ribas que puxa a toalha da mesa fazendo com que diversos pratos caiam ao chão. Todos se assustaram com a cena, menos o ancião, que se maninha incontrolável, rosnando feito um leão e dizendo que iria matar o garoto e o pai se não lhe pagassem o que lhe era devido. O moleque, assustado com a virilidade do "caquético", borrou-se de medo e danou a correr feito uma gazela amedrontada, deixando o próprio pai na mão. Percebendo que a situação se agravaria, o advogado entra em ação na tentativa inútil de baixar a testosterona do velho:
- Calma, Ribas! Não se resolve nada assim.
- Me segura, Dr., me segura que eu vou matar esse moleque sem vergonha.
- Mas desse jeito você não conseguirá seu dinheiro de volta.
- Aí é que tá, Dr. Não quero mais um centavo. Eu só quero matá-los devagar. Vou precisar dos seu serviços, Dr.
- Pra quê, Sr. Ribas?
- Pra me tirar de lá da cadeia porque eu vou fazer besteira.
Aproveitando-se de um leve momento de calmaria, o advogado saca R$ 400,00 e dá para o gerente do restaurante como forma de esquecer o incidente e pagar o prejuízo do quebra-quebra.
- Inexplicavelmente, quando menos se espera, o musculoso amedrontado retorna, dessa vez com quatro policiais que levaram todos para a delegacia. Ribas foi o último a prestar depoimento. O advogado, sabendo da língua afiada do velho, suplica em seus ouvidos:
- Ribas, meu filho, por Deus, não vá falar em matar e, por favor, negue todas as ameaças mais pesadas que você falou no restaurante porque você sabe que é da boca pra fora. Vai lá que o delegado tá te chamando. Da-se início ao interrogatório:
- O Sr. que é o Ribamar?
- Sim, seu Delegado.
- Quer dizer então que o senhor tentou agredir o fortão ali e o pai dele também?
- Positivo.
- hum... e diz aqui que o senhor jurou que iria matá-los, isso é verdade?
- Não. Anotaram errado.
- ah... bem logo vi. O Sr. parece ser um sujeito bom.
- Eu vou é esquartejá-los. Começarei atirando pela perna, depois joelhos, até chegar na cabeça e torturar um a um, mandando cada pedaço do corpo para o quinto dos infernos, de repente lá eles aprendam a ser dignos e honrados.
O Delegado imediatamente percebe que os policias estavam dando silenciosas risadas das declarações do velho e resolve por fim ao deboche através de um solidário tapa na mesa que os expulsou da sala. E o interrogatório prosseguiu, dessa vez de forma reservada.
- O Sr. teve muita coragem ao colocar os dois pra correr. Meu pai era corretor feito o senhor e há dois meses faleceu de infarto. Era um bom sujeito, cabeça dura e cheio de atitude como você, o problema é que fumava muito e adorava prostíbulos. Acredita que ele foi encontrado morto na cama de uma prostituta aqui do Leme?
- Ribamar começa a rir para surpesa do delegado e dispara: O Sr. é filho do Valtinho? Meu Deus, você era um guri. Como você cresceu... lembro bem de você e de seu irmão, duas crianças encapetadas, como o tempo passa.... depois o teu pai sumiu sem deixar notícias. Sempre mulherengo e misterioso. Garoto, teu pai e eu temos muitas histórias. Aquele era o safado com a alma mais cheia de vida que conheci. Era um homem intenso. Todos gostavam dele.
E a conversa prosseguia. O depoimento transformou-se num adorável bate papo. Do lado de fora, um inconformismo por parte do filho sarado e de seu pai ganancioso que não entendiam o volume daquelas gargalhadas que irradiavam a entediante delegacia. Três horas depois o Delegado chama todos os policiais e diz que vai sair com Ribamar para jantar.
O proprietário caloteiro, espantado com a cena, indaga em tom arrogante:
- Delegado, como está o procedimento? Vocês registraram a ameaça que esse velho louco fez?
- Não, infelizmente deu uma pane em nosso sistema, não há como registrar nada hoje, mas pode ficar tranqüilo, estou de olho em tudo, ouviu bem? Em tudo! Isso inclui você e o machão do seu filho. Deu pra entender bem ou vou ter que ser mais claro? Não me faça investigá-los.
- E assim a tarde se encerrou. Ribas foi salvo por um triz e ainda recebeu um belo jantar. No dia seguinte, acordou na intenção de ir ao banco tentar negociar sua dívida quando, de repente, encontra um chegue do proprietário no valor de cinqüenta mil Reais com a seguinte informação:
Segue o cheque do desgraçado. Os juros são um presente meu.
Você traz alguma razão para eu crer em todo esse lixo.
Obrigado. Eles não irão importuná-lo.
Aceita uma sinuca na quarta que vem?
Queria ouvir mais histórias sobre meu pai.
Um grande abraço,
Delegado Oliveira.
Do Massante das Massas As Tentações Da Maçã
desde o começo sabia que não pertenceria aquele mundo. Cansado de envergonhar-se da própria desobediência, lançou aos previsíveis eventos uma lasca de vontade derradeira. Amontoou os restos de cinzas que o incomodava e soprou-as através de uma crença branda em algo que volta e meia insistia em vislumbrar o sombrio. Apostou no valor do vento, e sem nada a perder, sorriu.
Ela surgiu.
Curiosa para farejar os novos goles de simpatia dele desciam feito milagre inesperado, o abordou. Abusando de uma imprevisibilidade quente, atirou sobre sua áurea sensíveis punhados de honestidades maliciosas guiadas por uma vaidade que fazia jus a natureza de seus cabelos castanhos e, fingindo um não querer, vendeu-lhe sabiamente a clássica e instigante desesperança cínica. Sem se intimidar, ele não a comprou. E sem nada a perder, ela sorriu.
Partiram dispostos a encarar o presságio daquele contato intenso. Não havia tempo ou vontade de digerir o mundo alheio. Simplesmente viveram e, cientes de suas forças resolveram crer que através daquele calor inconcebível poderiam aprimorar o incontrolável se acreditassem no ápice. Então se fez manhã. O sol despertou seus corpos e numa atitude nobre como a madrugada nua se despediram do acidente oportuno e seguiram confiantes de que seria impossível ignorar o inesquecível.
Sem nada a perder...
Tensões de um doce cérebro nervoso
- Voltando pra casa dos meus pais.
- Mas porque?
- Tá doida, Camila? Você mandou eu sair de casa.
- E você foi?
- Claro.
- Quanto orgulho bobo. Volta logo, vai.
- Não é orgulho. É dignidade. Se fosse orgulho eu não atenderia o celular.
- Desculpa, amor. Perdi a cabeça. Você sabe que me deixa insegura, que sou assim... meio doida, mas é porque sou louca por você e já tô morrendo de saudade. Volta, vai.
- Desde que você pague o táxi, Camila. Porque já é a terceira vez em dois meses
- Pago o Táxi, pago o filme, pago a pizza e outra coisa que você adora.
- Aí é covardia. Só de pensar nisso meu coração se enche de perdão.
- Então volta logo que eu tô carente.
- Quer que compre pão de queijo?
- Quero.
- Tá bom. Daqui a pouco tô aí.
- Mô?
- Oi.
- Quem taí do teu lado?
- O motorista do táxi.
- Mas eu ouvi uma voz de mulher...
- É o rádio, Camila.
- Regis, quem é que está do seu lado!!!? Não mente!!!
- É o rádio, Camila, porra.
- Tá bom, Regis, tá bom... Você tá achando que sou otária. Volta pra casa dos teus pais, volta.
Dos Parafusos as Paranóias
Mesma noite. Duas da manhã. Botequim Informal - Leblon. Lila desabafa com Patrícia e Bianca, amigas de confiança
- Ele é um egoísta. É isso que ele é. Não lutou por mim. Não esboçou qualquer sentimento de tristeza, de perda, de saudade... Tudo o que ele queria era que isso acontecesse. Homem nunca tem coragem pra terminar. É impressionante. Era só ele ter me falado, mas não. Ficou com aquele papinho "meia bomba" de que seria melhor para o meu futuro. Só se for na cabeça dele. Aquele covarde. Não confio mais em homem nenhum, tô cansada de me iludir.
- Eu te falei, Lila. São todos iguais. Mas você fica romanceando a vida. Só os uso, literalmente, pra tapar buraco. E olha que tô pegando um gatinho da zona norte que tá tapando é tudo.
- Ai, credo, Patrícia. Sem vulgaridades hoje, por favor. O que a Lila tá sentindo é sério. Mas acho que você, Lila, tá confundindo muito as coisas. O Dinho é um cara super legal, tem um coração bom. Ele pode estar pensando no seu melhor e você é quem não quer aceitar. Não acredito que ele esteja fugindo ou se aproveitando da situação só pra pular fora.
- Ai, gente.... vocês estão me deixando mais confusa, minha cabeça tá um parafuso. Garçon, traz a conta, por favor.
Mesma noite. Três da manhã. La Chicholina - Copacabana. Dinho desabafa com Pereira e Helinho. Amigos de confiança
- Cara, não tive escolha. Se eu falo para ela não ir, mais cedo ou mais tarde ela jogaria isso na minha cara. A cada discussão eu escutaria ela dizer que deixou de cuidar do futuro por minha causa. E eu seria para vida toda o egoísta da relação,o possessivo, o dominador... Além do mais, tô achando muito estranho essa atitude repentina. Isso tá me cheirando a fuga. Tem outro na parada.
- mermãooooo... tu tá maluco? Vai ficar preocupadinho com mulher? Olha só essas putas dançando aqui na tua frente. Acorda. Vai se envolver pra quê? Casar pra quê? O mundo é materialista desde os tempos medievais. E se tu quer saber, a Lila nunca foi muito confiável. Aliás, mulher nenhuma. É só tu observar as amigas dela, tudo um bando de safadas, vivem bêbadas por aí, se perdendo nas noitadas. Mulher gosta é de dinheiro, Dinho. Já te falei mil vezes. Por isso que eu só aplico o meu suor nas profissionais do sexo. E se eu fosse tu, meu brother, deixava de ser inocente e sonhador e escolhia logo uma buceta bem gostosa. Aproveita que eu tô bancando hoje, só pra tu ficar feliz.
- Pega leve com o cara, Helinho. Ninguém veio aqui pra comer mulher. E também não é assim. A Lila sempre deu apoio pro Dinho. É uma garota bacana. Sempre se deu o respeito. Super sociável... todo mundo que eu conheço adora ela. Portanto vê se pára de uma vez com essa mania amargurada de resumir a qualidade da mulherada a tua cama. Tem muita coisa boa por aí e a Lila é uma delas. Dinho, tu é meu irmão, cara. Pára e me escuta. Eu acho que a Lila tá confusa com a pressão vinda dos pais... tenta conversar. Não joga tua felicidade fora por puro orgulho.
- Galera, valeu pela força, mas esse papo tá me deixando ainda mais paranóico. A energia podre desse lugar aqui também não tá ajudando em porra nenhuma. Querem saber? Tô indo pra casa agora. Pereira, paga a conta aí que depois a gente acerta.
E a distância das dúvidas se fez menor do que o significado entre as fronteiras. Lila foi para os EUA. Dinho continuou seguro de seu mundo. Junto com eles um turbilhão de incertezas que, ironicamente, os tornarão ainda melhores.
So-la na bunda
- Bom dia. Vim aqui para a entrevista.
- O Sr. é o Rafael?
- Que senhor que nada, fique à vontade para me chamar de Rafael.
- Senhor. Você tem meia hora para fazer o teste de raciocínio lógico e mais uma para a redação.
- 2 minutos depois ... -
- Desculpe. Deve haver algum engano aqui. Vim para uma entrevista em que me candidato ao cargo de Analista de Marketing.
- Exato, senhor.
- Ok, senhora. O problema é que não sei mais fazer esse tipo de provinhas.
- Não entendi.
- Problemas de matemática e física, ora. Da última vez que fiz uma conta de dividir no papel eu tinha quatorze anos. Esse teste que você me deu envolve contas de MDC, MMC, fração, conjunto e eu, desempregado, tô ficando desesperado com tudo isso. Vocês querem testar minha memória em relação à infância, é isso? Com certeza tem psicologia aqui. Alguma espécie de análise comportamental. Aonde estão as câmeras? Ok, já entendi, querem testar se vou ou não perder as estribeiras. Pois saiba que ninguém aqui vai me derrubar. Pronto. Pode registrar aí. Anota. Diz que eu tô cal-mo.
- De maneira alguma, senhor. Temos outros métodos para avaliar temperamentos e pelo visto o seu não anda nada bem. O que queremos é testar o seu raciocínio lógico. Só isso.
- Que raciocínio lógico? Quem raciocina por mim é o Excel. Me dá ele aqui e sou capaz de achar a razão dos seus cabelos estarem mais escuros hoje.
- Jura? Você reparou?
- Claro, linda. Você tem traços finos e um sorriso que faz as pessoas se sentirem confortáveis ao seu redor. O rubro lhe deu muito mais vida.
- Não exagera, menino. Como soube dos meus cabelos?
- Feeling, mulher. Duvido que você ache um candidato com essa capacidade assertiva. Coisas assim são dons que a pessoa carrega com ela. Não se aprende da noite pro dia.
- Ai meu Deus. Que bom. Tomara que o Mauro repare. Tô preocupada de perder pra esposa dele.
- O Mauro é seu amante?
- Ei, vê lá como fala. Ele é meu aflair. Olha, taí, gostei da sua sinceridade. Vou te passar o gabarito. Mas me conta uma coisa, como descobriu sobre o meu cabelo?
- Como você conheceu o tal do Mauro?
- Ai... ele é um safado, mas eu ainda confio nele. Sinto que ele gosta de mim. Um dia ele será só meu. Todo meu.
- Ele gosta mesmo?
- Com certeza. A vaca da namorada dele é muito sem sal. Todas as minhas amigas acham o mesmo.
- Entendo. E provavelmente ele só vai ao cinema com você, aos melhores restaurantes com você, só anda de mãos dadas com você, só fala de você para os amigos e provavelmente tem uma foto sua na mesa em que trabalha já que não consegue passar um dia sem te ver. Acertei?
- Vem cá. Tá queredo me esculachar?
- Que isso, senhora. Foi apenas uma pergunta.
- Sei. Ele me liga quase todas as quintas se você quer saber. O problema é que ele vive muito ocupado o resto da semana, mas já me disse que logo-logo terminará com a esposa para vivermos felizes.
- Tomara, senhora. Torço por você. E há quanto tempo vocês são amantes?
- Seis anos.
- Toma.
- Que isso? Já terminou? Não vai copiar as respostas?
- Desanimei.
- Aonde você vai?
- Pra praia.
- Ei... só me diz sobre o cabelo. Como soube?
- Às vezes, em situações de desespero, é preciso escolher aonde chutar, senhora. Se não fosse o cabelo seriam as unhas, se não fosse as unhas, a maquiagem ou qualquer peça de roupa que parecer mais nova.
- Não entendi.
- Relaxa. Você vai entender assim que receber um bonito pé!
- Que menino louco. Que pé? Volta aqui. É mole?
- + 2 minutos depois.... -
- Alô, Maurão? Cara, tu nao vai acreditar. Acabei de conhecer a mulher que tu come. Ae.. .tu tinha toda a razão, o vermelho borgonha não caiu bem nela.
A cobertura
Pra quê foi me olhar com tanta luminosidade? Estava mais seguro sentado em minha inércia, com minha cerveja quente, vendo-a expor sua nostalgia hereditária na forma da mais perfeita divisão. Se não fosse aquela dança. Se você não me desse à oportunidade de sentir tua pele, não estaria aqui, agora, me perguntando novamente se valeria ou não a pena errar. Eu sei, fraquejei, não deveria deixar o portão entreaberto, mas agora está ventando e eu não tenho mais remédios pra enfrentar este sereno com cheiro de perigoso acalanto.
Não resisti e fui tocá-la, é verdade. Mas não ao ponto de me sentir invadido. Conheço bem os riscos desse tipo de calor que não se traduz. Portanto não me entenda mal. Foi o mundo quem me obrigou a ficar atento a sinais que enfrento com sabedoria frouxa, pois como disse, minha linda, a dança é covarde.
Obrigado. Ficarei com as músicas. Quase sempre as mesmas. Agora com uma pequena diferença daquilo que nos sobra: a sublime pausa. E eu, novamente, aqui, estático, sem saber como prosseguir nessa madrugada intensamente passageira, me satisfaço.
Dorme, moça,
que amanhã é dia de nos ignorarmos.
Porque alguns homens - palhaços ou não - se importam com o passado - uma homenagem a Satine
É uma escolha. O que ficou para trás, a elas pertence. Mas se por masculina pressão propõem-se dizer tudo o que se passou ao amor de suas vidas, então que sejam verdadeiras até o fim. Porque por mais que as reações sejam violentas haverá sempre peito para suportar cada porrada, compreender cada atitude e poder seguir em frente com coragem e, sobretudo, entusiasmo para juntos gozarem do mundo que se tornará tão gigante quanto a esperança.
A elas peço: nunca mintam.
Muito menos neguem o que sentem por medo de si ou dos demais porque a falsidade nos desarma. Enfraquece a alma ao ponto dela nunca se tornar a mesma. É como se preenchessem nosso vazio, com um amor intenso, por onde transbordam respeito e carinho para, como num flash sombrio, sermos lentamente esvaziados pelos buracos descobertos, causado por pontadas malígnas que perfuram nossas cabeças com agulhadas de horror.
Desperdício que traumatiza o peito com agonias latentes numa forma que só quem sofreu decepcionante mal poderia explicar. Simplesmente permeia uma necessidade carente de nunca mais acreditar em bom dia. Indigestão que ganha força após cada brecha cinza por onde escorrem inevitáveis notícias vindas dos mesmos ciclos sociais feito gotas ácidas por demais indesejáveis.
Queimaduras muitas vezes bizarras, que chocam o sentido de integridade, amor, respeito, caráter e gratidão por tudo o que foi vivido em anos de relação. Um desrespeito ao grupo como um todo. E depois, na hora de encarar cada erro com a dignidade merecida, terminam ficando com mais temor e fugindo pra além de onde a insegurança suportaria caminhar. Afinal a imagem tem que falar mais alto do que a indigestão. E você, Satine, tá ganhando maturidade sem falso colo. E talvez por isso não precise mais latir para coisas sem significado.
Dizem que a esperança é um bem gratuito. Não consigo tê-la sem confiança bruta. Dormir com quem acreditamos é acordar sonhando. É não ter medo de estar amarrado por mais apertados ou sufocantes que sejam os nós, porque jamais se fizeram cegos.
Erramos. Assumamos. Buscamos. Aprendamos. Cresçamos. Morramos dignos de cada falha, mas com sede de querer o bem. Por isso, agradecendo, digo:
Também quero morrer de amor. Desde que seja eterno enquanto dure e verdadeiro enquanto inflama.
Aonde o Destino Diz Chega
Sempre caguei para determinados tipos de “luxo”. Nunca soube reconhecer um bom vinho com suas infinitas regrinhas. Desconheço taças apropriadas ou formas adequadas de segurar qualquer champanhe e ainda por cima sou um desastre com o saca rolhas sempre que me proponho cavalheiro. Sinto-me mais relaxado com cerveja e caipirinha, além de grandes doses de uísques em ocasiões especiais cujos objetivos são maliciosos.
Nas festas de casamento, em que imperam as brusquetas, aguardo ansiosamente a vinda dos quibes, das codornas com molho rosé e das deliciosas coxinhas. Detesto invenções culinárias que na maioria das vezes não combinam umas com as outras, fazendo-me sempre cuspir no guardanapo enquanto meus bolsos vão se entupindo de restos de goiabada com kiwi, entre outras maluquices que gente chique ajunta, e fazem o Beto morrer de vergonha do meu comportamento.
Jamais almejei ter um carro importado na vida. Não entendo bulhufas de automobilismo. Acho repugnante ter Ferrari, BMW e afins. Não por questões ideológicas, cada um que compre aquilo que deseja com o fruto do seu trabalho, só acho estranho alguém querer ter um carro que se difira demais da grande média, como também julgo esquisito os que exibem seus fusquinhas e jipes velhos por aí apenas para forçar um estilo meio retrô enquanto o papi coloca a mesada da maconha com a mesma fidelidade com que beija a bandeira petista estampada na varanda de sua cobertura no Jardim Botânico - ostentação escancarada, meu caro, é mais honesta do que simplicidade pretensiosa. Digo isto para defender o Beto, coitado, que adora exibir seus pertences a muita gente que o critica.
Aqueles restaurantes finos, freqüentados por celebridades, só conheço de nome. Adoro mesmo é churrascaria, pizzaria, comida nordestina e rodízio de comida japonesa. Aliás, sou fascinado pela arte de comer. Nessa vida só dispenso o jiló, a carne de fígado e a nata do leite - e, é claro, combinações como goiabada com kiwi. De resto encaro tudo. Os botequins, as adegas, os bacalhaus e aquelas benditas feijoadas comandadas pelos tios e tias espalhados pelos becos da cidade maravilhosa me deixam culinariamente babando.
Às vezes me sinto um pouco acanhado de convidar o Beto para meus programas, já que nunca conheci o Gero ou o Cipriani, aonde ele costuma levar a maioria das “meninas” nos finais de semana. E que coisinhas lindas. Modelos de ponta. Um dia serei bem sucedido como o Beto, que aparentemente goza a vida mais do que eu. Preciso mudar urgente meus pobres podres hábitos para não acabar sozinho. Preciso de mais ambição. Mais trabalho, mais gana. Preciso ser como o Beto, andar como o Beto, vestir-me com a mesma finesse dos homens de sucesso que o bajulam.
O problema é coragem para encarar as jaquetinhas jeans da Ralph Lauren. Nada contra quem as usa. Mas me remetem a imagem do milionário corno, do tipo almofadinha, que dá tudo para a mulher enquanto ela diverte o motorista com brincadeirinhas que não têm tanta importância num mundo em que o que conta é o tamanho da conta do conto que você conta, desse jeito e nessa turbulência... feito feios trocadilhos daquilo que gostaríamos de ser, e não somos.
Então que venham as mais bonitas e malhadas. Ao Beto, grito: Me espera que eu tô terminando de vestir minha Lacoste. Quero as cheirosas de cabelo escovado. Certamente vão se orgulhar muito ao verem meu jacaré boquiaberto com o próprio papo amarelado que só convence as lagartixas que não comandam o próprio rabo. E por mais que você os corte, estão sempre balançando em busca de chacoalhar seu orçamento. Por isso, e não somente por isso, quando perco as estribeiras me atraco com uma feiosa de rabo fixo, sempre disponível e sem joguinhos. O problema é que elas matam o Beto de vergonha - e o pior é que me divirto com a cara de espanto dele. Mas agora decidi que só vou me abastecer de dondocas para não debochar da minha sobriedade.
Ou vocês acham que eu seria réptil a ponto de só rastejar humildade nesse espaço de "verdades inventadas"?. Pelo contrário. Gosto de coisa boa. Sempre gasto além da conta e volta e meia fico na corda bamba financeiramente.
Jamais me orgulhei por não saber usar meu dinheiro corretamente e por não conseguir valorizar algumas categorias importantes do status, como recomenda o Beto, sempre admirado pelas damas da noite por sua estabilidade, seu jeito de se vestir, pelos lugares bons que freqüenta, livros que lê, carros que tem e por aí vai. O Beto tem receita pra tudo. Não perde, nem pede absolutamente nada que ele mesmo não vá conquistar.
Tento ser como ele. Estive em museus pela europa, galerias de arte na França, Londres, Escócia, Irlanda.. e, tirando as obras do Pablo Picasso, nada em termos de arte me comoveu como certamente cativaria o Beto se ele estivesse em meu lugar. Perdi horas olhando aquelas gravuras para ver se me emocionava com alguma e nada. Nem uma mísera lágrima. O sorriso da Monalisa definitivamente frustrou meu entusiasmo por pinturas. Quanta perda de tempo tentando entender aquele quadrinho mixuruca. É. Acho que as únicas coisas que me encantam mesmo são música e cinema. O resto está acima das minhas habilidades sentimentais.
Sobre o Beto, é sarado, mente aberta, poliglota, curte ácido, maconha e raves e já está na terceira tatuagem. Mas tudo de forma dosada. Eu o desanimo quando digo que não passo da cachaça e que tenho nojo de quem fuma criancinha morta na minha frente. Dá vontade de sair feito o Capitão Nascimento, distribuindo porrada em cada marginal inconsequente.
Mas o Beto tem sabedoria. Discorda do meu pensamento até o infinito e já me deu aulas de como as coisas funcionam na Holanda, provando que a legalização é a saída perfeita para o Brasil, que está em franco crescimento. O irônico é que nada aqui é legalizado e eu – talvez por ser novo – não sinto esse fermento social em relação ao jovem país. Mas o Beto vê. Então, como aprendiz que sou, só me cabe concordar e modelar. Condordar e modelar...
Afinal o cara é meu novo espelho. São 35 anos de sagacidade. Quinto divórcio. Namorando uma gracinha de 16 anos que o ama perdidamente. Romântico de intelecto. Diz que amor é passageiro como a paixão e que devemos viver tudo intensamente até esgotá-la – e o Beto tá sempre faminto. Temos que estar preparados para o momento da troca, diz ele, enquanto limpa a prateleira para angariar novas marionetes da ilusão.
O Beto não dá a mínima para os meus programas limitados. Só frequento blocos de rua, carnavais e shows de samba e tudo o mais que a Lapa tem de bom. Por isso ele é importante na minha vida, para gerar mudanças já que eu nunca fui a Baronetti. Não sei nem o cheiro do ZeroZero e menos ainda a complexidade social da Nuth.
Recentemente estive na Melt e odiei. Talvez eu estivesse de mal humor. O importante é que ainda tem uma lista de lugares recomendados pelo Beto, um mundo de coisas que enriquecem a alma.
Mas eu também dou minhas arriscadas que terminam em fracasso. Da última vez arrastei o Beto para a feijoada da Portela, por exemplo, ele ficou com cara de poucos amigos. Também pudera, aonde eu estava com a cabeça quando quis levar um sujeito como ele para comer feijão com a massa?
Mas a troca tá ficando interessante. Estamos chegando lá pouco a pouco, cada um conhecendo o estilo de vida do outro. Quer dizer... é claro que o Beto só parcitipa do meu mundo rudimentar como forma de tentar mudar meus ideais sem se mostrar egoísta e eu acho muito nobre da parte dele. O problema é que...
...para meu desencanto. Ontem tive a triste notícia de que o Beto havia morrido. Segundo a polícia, em seu quarto haviam caixas de Prozac vazias, doses de cocaína em um copo quebrado de uísque e o quarto completamente revirado. Durante o interrogatório, disseram-me que há suspeitas de que dois travestis foram vistos no apartamento na mesma noite e que talvez eles pudessem ter roubado alguns pertences e, como fuga, forjado um suicídio. Lembro-me claramente da última pergunta do investigador:
- Encontramos no diário do Beto, somente o seu nome como referência de amigo. Por isso o chamamos aqui, para saber a opinião de alguém conhecido. Você acha que o Beto se matou ou foi vítima daqueles travestis?
- Delegado, sinceramente... não sei. Vai ver foi ambição.
Sete Anos e Nove Meses
- Já tô de saída. Só vim ter a certeza de que o que falam é verdade.
- Entra, vai. Tá chovendo e eu não te quero resfriada.
- Você só quer a você, Ricardo. Foi sempre assim. Estúpido, insensível e egoísta.
- Não fala assim... tá com fome?
- Não.
- Toma... vai te fazer bem.
- Então é sério. Vai mesmo se casar?
- Sim, mas só no Civil. Não faremos nenhuma festa. Resolvemos rodar a Europa primeiro e depois fazer alguma cerimônia quando voltarmos.
- Se lembra que queríamos ir pra lá de navio?
- Lembro que queríamos o mundo, Camila. Éramos ótimos com sonhos e fantasias e péssimos pra lidar com nossas realidades.
- Tá bom. Mas a culpa não foi só minha por querê-los. Aliás... como fui burra. Eu e esse meu maldito jeito romântico. Minha falta de orgulho. Sete anos envolvida numa novela com você, esperando feito princesa o grande dia da virada. No fundo eu gosto disso, sabe? Só pode ser. Elas tinham razão... você só queria se aproveitar. Foi sempre carne e nada mais. E eu ali... envolvida na tua lábia incerta.
- Não é nada disso, Camila. Não precisa chorar, vai...
- Cala a boca, Ricardo. Essas lágrimas são só pra mim. Não tome como suas. E se você quer saber... eu também não te quero mais. Nunca mais. Decidi isso agora, só que...
- O que?
- Precisava te ver pela última vez.
- Não precisa ser a última. Podemos ser amigos.
- Por Deus, Ricardo. Dá essa tua hipocrisia pra tua mulher cheirar. Que amizade? Quando é que fomos amigos? Quando? Pára de jogar, pelo menos hoje. Me diz... ela é bonita?
- Que besteira é essa agora?
- Deve ser. Pra alguém escrever Zuleica nas costas, no mínimo alguma coisa de bonito a paraíba tem.
- Olha o respeito, Camila.
- Não sou eu, é o nome dela. Além do mais, você detestava tatuagem. Ai... que raiva disso tudo. Ela é rica, né?
- Foram por provocações como essas que a gente nunca se entendeu. Você não pensa, não sabe se portar diante dos outros.
- Que se dane o meu comportamento. Você nunca se convenceu dele mesmo. E você sabe muito bem que eu não sou como você, escravo do julgamento alheio.
- Se me odeia tanto assim, porque veio até aqui?
- Para saber o que você ainda sente por mim. Mas nem precisa. Dá pra ler nessa tua cara perdida.
- Camila... melhor pararmos.
- Você é um covarde, Ricardo. Vai casar por fuga. Só mergulha na boa, naquilo que a família indica. É um frouxo. Sempre foi.
- Chega, Camila. Vamos acabar brigando.
- Você me ama, Ricardo. É fácil sentir. Você treme diante da sociedade. Foge de mim, de você, da gente o tempo iteiro feito uma gazela apavorada. Tudo isso é medo de errar? Me diz... tá com medo de ser feliz? Será que você não vê que nosso futuro é mais valioso que essa insegurança borrada? Quando você resolver abandonar a frauda poderá ser tarde demais. Não desvia o olhar, Ricardo, tô falando com você.
- Eu tô te ouvindo, porra.
- O que ela faz pra te deixar tão sem vida? Meu Deus, você era visivelmente mais divertido quando estava comigo.
- É engenheira.
- Hum... uma calculista, finalmente. Seu pai deve estar quase morrendo de orgulho, que bonitinho. Certamente a idolatra e vocês já têm até aposentadoria planejada.
- Melhor do que ter que conviver com seus sonhos, Camila.
E o amor, Ricardo? Como você planeja o que você sente por mim quando encosto em você? Como é dormir com alguém que você não ama?
- Já falei pra parar, Camila, por favor...
- Ricardo, olha pra mim. Olha bem pra mim. Eu só quero dizer uma última coisa. Depois vou embora da sua vida pra sempre. Vem cá...
Camila puxa Ricardo e o beija arduamente. Ali, transaram como bons amantes que sempre foram. Camila sabia que tudo dependeria de suas habilidades. Esperta, escolheu o dia mais fértil e, debruçando-se sobre a pia, entrelaçou ricardo com as pernas e o sufocou a ponto de fazê-lo latejar uma prole dentro de seu interior. Após saudosa chuva de suor e gozo, tiveram que cair em si.
Ricardo limpa-se imediatamente e pede para Camila sumir da vida dele para sempre. Camila sorria enquanto comprimia os músculos da vagina, evitando que caísse qualquer gota que desperdiçasse o plano de um futuro tão antigo.
Camila despede-se de Ricardo com ar de vitória, abre a porta lentamente e parte num sorriso irônico que visionava novas certezas, principalmente a de que nove meses passariam voando para quem nunca admitiu perder.
Infâncias
A porta abre. A criança olha para a tia Rita, e num sorriso diz:
- Tia, você tem Nescau?
Não seja tão específica
- Mãe, é verdade que você e o papai fodem!?
A primeira batucada
- Você enlouqueceu, minha filha!!!??? Por que você estava batendo no seu irmão?
Comporte-se você também, tia Rita
- Mas que filho lindo você tem, Madalena. Qual o seu nome, menino?
- Murilo.
- Murilo... você tem um lindo nome, sabia? Agora você será o bezerro de raça da titia. Pode pedir o que quiser na cozinha que eu preparo, tá?
- A senhora tá chamando a minha mãe de Vaca?
Alguns aninhos antes da primeira Batucada
- Mãe, dá pra devolver ela pra sua barriga? Não dá para entregar ela pro hospital?
- Não, meu filho. Os filhos são presentes que vêm fazer companhia para quem precisa. Você não acha certo fazer companhia para quem precisa?
- A senhora não acha certo dar ela pra tia Rita? A pobrezinha não tem nenhum bezerrinho.
Pode Ser Que Não Cole, Mas Em Tempo De Política Fazemos Qualquer Negócio Para Acionar A Válvula
Gosto de ler o Blog dos outros. E através deles criar novas histórias o tempo inteiro. É como uma brincadeira em que são permitidas consultas em prol da exposição à troca de idéias. É uma guerra criativa, diria. E como prato principal, geralmente opto por confrontar meu conteúdo versos o dos meus amigos-autores favoritos. Nada além. Se alguém faz algum prejulgamento, não percebeu, ainda, que tudo é uma questão de válvula.
Se hoje escrevo devo as válvulas das pessoas mais íntimas. Respeito-as no sentido bom e ruim. Alguns leigos costumam julgar a intenção de determinados autores porque desconhecem o sistema de válvulas literárias. Todos somos e seremos válvulas literárias na vida de alguém.
As válvulas literárias são inúmeras e se modificam conforme as experiências momentâneas de cada autor. No âmbito humano-carnal, por exemplo, temos válvulas Venosas, Cardíacas e Pulmonares, que inspiram o coração e desestabilizam a respiração quase que por completa. Nessa fase tendemos a simular situações românticas - amor e ódio. Tudo vira drama.
Tem também a válvula existente nos motores de explosão, geralmente gerada após o disparate entre duas válvulas humanas, fase em que o autor se desespera como o confronto direto e passa a criar sem se preocupar com aquilo que os outros leitores possam interpretar.
A válvula Pneu - quem entende de carro conhece -, faz com que o produtor passe por cima de qualquer ética para controlar as interpretações, quando há um suposto confronto. Diferente da Servoválvula, que não apresenta o mesmo perigo porque é controlada por um motor auxiliar, impulsionado por obras alheias.
E... é claro, não podemos esquecer da Válvula Sanitária, muito usada em banheiros e industria de bebidas. Costumam acompanhar os autores em muitos arranjos e desarranjos, seguindo a seqüência: embriaguez, vômito e descarga. Não há escritor no mundo que não tenha sido impulsionado por ela, temidamente conhecida como a fase da merda.
Cada escritor – leia-se: qualquer indivíduo que ousa escrever –, é impulsionado por um conjunto de válvulas que possuem inúmeras formas que variam de acordo com as fases de sua vida pessoal e daquilo que ele capta em diferentes momentos. Este conjunto de ínumeras válvulas, chama-se escape.
Somos uma eterna e miserável válvula de escape que precisa explodir. Seja para vomitar humor ou tragédias. Por isso não dá para entender como existem pessoas no mundo com a vazia mania de abrir a tampa da privada alheia para cagar interpretações baratas. É pura falta do que fazer e dizer.
O leitor é essencial e tem a liberdade de pensar o que quiser a respeito de cada obra. Adoro que faça isso. Preciso. Foram produzidas para serem sugadas e criticadas. Mas tirar conclusões do caráter pessoal do autor e fazer afirmações pretensiosas, aí já é demais. Nem mesmo eu seria capaz de afirmar o que produzo. Como poderiam alguns leitores, ou autores?
Eu Acho Que Matei o Luck. E Sem Saber Descobri Um Grande Negócio
É claro que a pizzaria Guanabara não mais receberá minha visita enquanto existir opções como o Cervantes. Já o Baixo Gávea, não tem jeito. Como morador da Zona Sul, criado em condomínio e tendo amigos que idolatram aquele desfile de moda, preciso, inevitavelmente, vez ou outra me exibir por ali. Mas como meu cachê é alto, predisponho-me a pisar na passarela somente quando alguém faz aniversário. Como foi o caso do meu amigo Márcio, que resultou na morte do Luck. Vou explicar.
A Festa do Márcio aconteceria na Sexta-feira, dia em que eu não poderia comparecer ao evento. Primeiro porque tinha um campeonato no sábado. Segundo que eu jamais arriscaria conhecer uma boate chamada ZeroZero. Seria dar muita chance ao azar. As cariocas já são tão difíceis e neguinho ainda resolve concordar com elas. Ah... vá te catar. Da próxima vez ele que marque um outro ponto, que não o Zero.
Para solucionar a questão fraternal, decidi homenagear o amigo Márcio na quinta-feira mesmo, naquele lugar Baixo lá na Gávea. Cheguei por volta das onze horas e fui direto ao ponto aonde à galerinha costuma se apresentar. Não demorei a constatar que o maluco do Márcio simplesmente não estava presente. Pensei: agora ferrou, só me resta tomar duas latinhas sozinho, trocar meia hora de idéia com o ambulante e ir pra casa curtir o final da Grande Família – eu queria dizer de um bom livro, mas seria hipocrisia do autor.
Quando termino de comprar minha primeira cerva no meio daquela multidão de modelos, dou de cara com Mariana, amiga minha que sempre anda com no mínimo cinco mulheres ao redor - é como eu disse, uma Grande amiga minha.E não foi diferente dessa vez. Pois lá estava ela, risonha como sempre e como sempre rodeada de mulheres, todas sentadas em frente a um daqueles badalados botequins com nome de clube de corrida de cavalo. Tudo conspirava a meu favor, se não fosse a tragédia com o Luck.
Papo vai, papo vem, percebo que duas das meninas moraram no exterior junto com a popular Mari. Não tardou então para que falássemos de nossas experiências até que, repentinamente, Mariana decide ir embora deixando-me sozinho com suas amigas que eu mal conhecia.
Fiquei bebendo com elas até sermos expulsos de bar em bar. Quando não tivemos mais escapatória, compramos mais cerveja no posto e fomos até a casa de uma delas no Leblon, com direito a rodinha de violão regada a biscoitos que durou até o amanhecer. No final deu para dormir umas míseras três horas e curtir um bom café. Enfim, uma fórra verdadeiramente simples e divertida, daquelas que eu não curtia há tempos. Quase que perfeita se não fosse a morte do Luck.
Quando percebi que eram meio dia, decidi que seria melhor sair da casa delas para não explorá-las tanto. De lá parti feito um andarilho desesperado rumo ao Bibi Sucos. Eu estava faminto. Sozinho. Cheio de ressaca matinal moral daquelas de movimentos tipicamente lentos que causavam a sensação de que as largas ruas do Leblon deixavam-me solitariamente exposto. Resolvi então que seria imprescindível soliticar a companhia da grande amiga Kátia, para juntos termos um ótimo almoço, uma vez que a casa dela fica apenas há uma quadra de onde eu estava.
Kátia mal atende a ligação e numa arte - que só ela possui - consegue inverter todo o meu convite e praticamente me intima a ver como ficou a casa dela após a obra que lhe custou os olhos da cara. Claro, prometendo-me que comeríamos alguma coisa por lá mesmo. Nasceria em questão de minutos, o meu primeiro encontro com o Luck.
Eis que Kátia abre a porta com seu jeito serelepe de sempre. Mal deu tempo de salivar um oi e lá se foi a eufórica, puxando-me pelo braço e me apresentando cada quarto, cada cômodo, cada mobília nova que trazia um cheiro forte de felicidade e renovação. E eu lá... soltando meus elogios demagogos, dizendo que tudo estava muito lindo, que a hidromassagem na cobertura e a churrasqueira transformaram a casa numa referência para farras de Fim de Ano, Amigo Oculto e por ali eu ia... quando de repente, interrompendo minha tradicional rasgação de seda, me vejo surpreendido por Luck.
O clima ficou tenso. A presença dele despertou-me uma vontade de franqueza muito perigosa. Havia perdido meu cachorro há duas semanas atrás e escrito uma crônica em que justamente dizia que invejava a sinceridade dos animais. E ali, olhando nos olhos daquele bicho feio de cabeça esbranquiçada e pele sarnenta, me senti incapaz de mentir. Ele precisava escutar a verdade. Não o poupei. Soltei o verbo:
- Quem é esse bicho imundo, Kátia?
- Ah... você não o conhecia? Ele é o Luck.
- Não. Não o conhecia. Acho até que ele descaracteriza toda a beleza investida no Apê. Tava bom demais pra ser verdade.
- Ai que horror... deixa de ser chato. Olha só, ele tá fazendo festa pra você. Diz alguma coisa.
- Eu?
- É!!!
- Tá bom, Tá bom.. Oi, bichinho feio... que coisinha mais horrorosa do papai. Que dingo-lingo-dim mais fedorento...
- Pára, menino. Os animais sentem essas cargas negativas.
- Sentem nada. Agora me mostra a cobertura de novo que eu quero apreciar a vista.
- A vista é linda, vamos lá que vou te mostrar. Vem com a gente, Luck.
- Vem não, feioso. Pode ficar por aí mesmo.
E subimos as escadas novamente em direção a cobertura. Desta vez na companhia do Luck, que mostrando-se indiferente aos meus comentários, resolveu nos seguir. Tudo corria na mais perfeita harmonia. O vento estava maravilhoso e trazia consigo um leve cheiro de maresia que nos inspirava a ter conversas saudáveis, que só um fim de tarde carioca proporciona. Estávamos inteiramente calmos naquele terraço, até sermos grosseiramente interrompidos por um chocante imprevisto.
Luck começou a passar muito mal. Gritava e chorava como se alguma coisa estivesse incomodando a passagem da urina. Tentamos socorrê-lo, mas ele saiu correndo em direção a escada, chegando a escorregar uns cinco degraus antes de ir ao chão. Lá, deitou-se na própria urina, encostou a orelhinha no piso novo de madeira próximo a cozinha, e por ali resolveu ficar. Não levantava por nada, apenas expressava um olhar meio perdido, como se quisesse ficar em paz, para jamais sentir aquela dor de novo.
Partimos desesperadamente à procura de um veterinário que pudesse atendê-lo. Kátia não pensava em outra coisa que não fosse achar alguém para salvá-lo. Já eu, em duas. A primeira no veterinário, obviamente. A outra parte do cérebro pedia encarecidamente a Deus que perdoasse minhas palavras, que não deixasse que as energias delas levassem o Luck para sempre. E repetia comigo: só pode ter sido minhas ásperas palavras. Eu e minha boca maldita. O animal tem dois anos de idade e uma vida pela frente. Por favor, Senhor, não me deixe carregar este fardo.
A veterinária insistia para ficarmos traquilo, dizia que convulsão em animais são muito comuns e que desesperos inúteis pra nada ajudam. Imediatamente amei aquela mulher de maletinha. Aquilo sim era uma profissional experiente. Até o momento em que a doutora sabe-tudo me volta com a noticia de que o Luck havia falecido. E pior, não sabia explicar o motivo.
Kátia, forte como sempre, chorou por cinco minutos e partiu para solucionar o problema que consistia em saber como, onde e de que jeito enterrar o Luck. Imediatamente sugeri que consultássemos o oráculo Google para saber como proceder nestes casos.
Mas nem precisou. A veterinária sabe-tudo foi mais rápida e nos deu o telefone de uma equipe especializada em enterro de animais, disse que bastava ligar e pronto, tudo seria resolvido sem maiores problemas. Aquelas palavras me confortavam. Ao ouví-las voltei a me apaixonar pela sábia mulher de jaleco branco. Quanta facilidade em solucionar conflitos e acalmar pessoas. Que bom que ela estava ali conosco.
Pois é. Ligamos e o cara não somente disse que não tinha tempo, como também que às 4 horas da tarde o cemitério de cachorro pára de atender, mas que mesmo assim ele passaria os preços pra gente numa boa. Volta meu ódio pela veterinária. Mas vamos esquecê-la. O importante é que o leitor fique atento aos preços:
Cremação coletiva – R$ 150, 00
Cremação individual – R$ 300,00
O relógio apontava três e vinte num giro irredutível que trazia a desesperadora certeza de que quarenta minutos para vencer qualquer empecilho daquele nível seria uma corrida jamais vivida.
Sem pensar muito, tratei de contactar um taxista conhecido. Ele, solidário como sempre, diz que não levará animal nenhum no táxi dele, ainda mais morto. Pedimos clemência. Tentei convencê-lo de que morto dá menos trabalho do que vivo. Ele não me entendeu, mas eu continuei. Prometi que o bicho não iria se mexer. Jurei de pé junto que ele ficaria duro, completamente empalhado e que tal inércia seria mais lucrativa, tanto quanto a corrida, que pagaríamos em dobro.
Bastou o último argumento para ele concordar em nos levar. Eu avisei que o homem era solidário.
Kátia, por sua vez, nem tanto, não admitia que eu levasse o cão por nada. Fez questão de carregá-lo nos braços durante todo o percurso. Tamanha e penosa decisão de suportar vinte quilos sozinha, tendo um homem mais forte do lado, despertou-me uma nova crise:
- Tenho certeza de que a Kátia me culpa pela morte do Luck. Ela não quer me dizer por piedade. No fundo ela sabe que fui eu.
Chegamos faltando cinco minutos para fechar o cemitério. Minutos de uma sexta-feira, ou seja, nem preciso descrever o humor dos funcionários. Conseguimos que não batessem a porta em nossa cara graças ao charme comovente que Kátia transmitia. Adentramos de queixo erguido e sem muita conversa partimos para o ataque às burocracias. Assim que terminamos de preencher a ficha do Luck, tivemos outra importante notícia.
A de que, diariamente, chegam naquele cemitério cerca de cem animais mortos. E pasmem: o valor da cremação coletiva informada pelo transporte na verdade custa R$ 8,50.
Fiquei tonto com a boa notícia. Imediatamente deixei de pensar no Luck e em toda aquela neurose de assassinato.
Fui imediatamente abduzido pela matemática simples de um cérebro defeituoso que numa espécie de alzheimer ganancioso repetia: esses caras do transporte tiram em torno de mil Reais por dia... esses caras do transporte tiram em torno de mil Reais por dia... esses caras do transporte...
(E os devaneios foram tomando forma)
E se eu pegar a Caravan velha do meu pai? Posso colocar quarenta cachorros empilhados e ainda sobra. Posso incluir os gatos também. São mais leves, fedem menos e vai caber muito mais. Isto se o preço for o mesmo, é claro. E se os donos optarem pelo plano individual? Minha Nossa Senhora, lucraria no mínimo o dobro.
Eureka!!! Descobri como sair da miséria. Deus mandou-me aqui para levar a alma do Luck que certamente estava com hora marcada, dando-me a missão de cuidar da Kátia e não deixá-la sozinha nesta tarefa tão sofrida. Deus é genial. Atendeu minhas orações e está me dando a oportunidade de sair da lama. Claro que é isso. Só pode ser. Jesus falava por parábolas e usou a morte do Luck para me passar as boas novas.
Tudo estava interligado desde o início: o Baixo Gávea que não costumo ir. A ida à casa das meninas que me abriram as portas sem mal me conhecer. Minha dormida no Leblon. O Bibi Sucos que sempre me lembra a Kátia, pois passamos aniversário lá. Agora tudo faz sentido. Obrigado, Senhor. Minha alma está em paz.
Paz esta, que logo foi interrompida por Kátia, que aos gritos dizia:
- Acorda, menino!!! Estou falando com você. Deixa de ser desligado.
- Poxa, desculpa. Eu meio que peguei no sono. O que você resolveu?
- Cara, estou muito feliz.
- Que bom... o que houve?
- Descobri que aqui também tem enterro. O babaca do transporte não tinha avisado porque queria lucrar.
- Isso eu já tinha percebido. E quanto vai custar?
- Apenas R$ 110,00.
- Mas Kátia, a cremação coletiva é R$ 8,50.
- E você acha que eu vou queimar meu cachorro junto com outros bichos? Nunca.
- Pensa bem, Kátia. É melhor que ele viaje na companhia dos amiguinhos.
- Jamais. O Luck é único. Merece ter um enterro dígno.
(Não desisti)
- Que besteira, Kátia. Estamos falando de carne. O espírito do animal se foi. Ademais, e se o cachorro tiver catalepsia e acordar dentro do caixão? Você mesma disse que o bicho ainda estava quente. E se ele não morreu?
- Você acha..?
- Vai na minha. Melhor as cinzas. Você pode jogá-las ao mar ou deixá-lo livre, flutuando entre os ventos. Não é lindo? – Pura lorota. Não deixaria que minha amiga perdesse cem Reais por conta de uma carne morta.
- Desculpa, amigo - respondeu-me com ar irônico de quem pescou minha malícia -, mas vou arriscar. Quero que meu cachorro tenha um enterro decente, e nada nesse mundo vai impedir.
- Ok. Você venceu. Qualquer coisa me chama, vou ficar ali sentado.
- Vai lá.
Volto a dormir na cadeira em frente ao balcão de atendimento e a gozar meus delírios que estavam completamente focados na montagem da futura Dogs Cabeça Transporte de Animais Mortos Ltda - com grande possibilidade de virar uma S/A. Há tempos que eu não sonhava tão alto. Sonhos que despencaram novamente, com os berros da Kátia - parece que ela sente prazer nisso:
- Puta merda. Não acredito!!!
- O que houve dessa vez, Kátia?
- Não aceitam cheque. Só dinheiro vivo.
- Bom... eu tenho R$ 8,50. Te serve?
- Pára de ironia. Já disse que não vou cremá-lo.
- Ok. As coisas sempre têm que ser do seu jeito, né?
- Espera aí... aonde você vai, garoto?
- Pedir dinheiro ao Taxista.
- Você é maluco....
(vinte minutos depois de uma longa negociação com o taxista)
- Kátia ?
- Diz.
- Consegui setenta Reais com o motorista. Se somarmos vinte meu dá noventa. Faltam apenas mais vinte. Quanto você tem na bolsa?
- Não precisa, sabichão. Joguei meu charme e o gerente permitiu trazer o dinheiro do enterro amanhã.
- E o que faremos com o Luck? O bicho vai feder muito se ficar aqui o dia inteiro.
- Ai... tolinho. O Luck vai pernoitar aqui. Será congelado, guardado bonitinho e descongelado amanhã, para que tenha um enterro decente, com velório e a presença de convidados. Pode deixar que eu já resolvi tudo. Nossa... Tô muito feliz e aliviada.
(Pensei. Mas não falei.)
- Como assim resolveu tudo? E eu não ajudei em nada? É isso mesmo? Tolinho é o escambau.
Preferi me conter. Não estragaria a felicidade dela por pura carência de reconhecimento. Decidi que o mérito seria só dela e que eu não seria sincero. Até porque minha sinceridade pode ter matado o Luck.
Ou então foi culpa daquela energia duvidosa do Baixo Gávea, que somada a áurea duvidosa do meu vira-lata raivoso morto há duas semanas atrás, gerou uma espécie de energia radioativa fulminante para o Luck. Mesmo assim, eu continuaria respondendo por homicídio culposo, já que transportei a carga. É. Não tem jeito. Melhor que a Kátia saiba por mim.
Deixando um pouco de lado a causa e os efeitos, foi bom entender que apesar do ocorrido, no final as coisas deram certo. Estamos nessa vida de passagem. Podemos ser surpreendidos por acontecimentos inesperados a qualquer hora do dia. Precisamos, e não é nada fácil, buscar forças para cuidar de quem tá perto da gente.
A morte quase sempre é sorrateira, talvez por isso seja tão temida. Se existem outros planos reservados a nós, não temos como saber agora, mas podemos guardar a certeza de que a morte é fiel, sempre esteve conosco o tempo inteiro. É fácil sentí-la porque deixa viva em nossas almas uma saudade ruim, quando as lembranças do que se passou foram boas. E uma saudade até que boa, quando ela carrega alguém que não vale a pena ser recordado. Por isso acho injusto odiarmos tanto algo que surge para trazer mudanças significativas em nossas vidas. Algo que tem a missão de nos testar, e por pior que sejam as etapas, nos enriquece de amadurecimento.
Neste dia eu e Kátia fomos testados e aprovados por esse esqueleto de foice que adora trazer péssimas surpresas. E teremos várias outras provações pela frente. Precisávamos agir com certa frieza para que a dona morte nos respeitasse. Não podíamos dar tanta margem ao sofrimento porque além de imortal ela é vaidosa. Se dermos tanto valor, monta em cima da gente, derrubando completamente nossas esperanças. Foi uma experiência emocionante ver Kátia sentir-se triste e incapaz no momento certo, e horas depois feliz e realizada por ter conseguido enterrar o cão da forma como pretendia, proporcionando a irmã, dona do cachorro, o direito de enterrá-lo e de dizer um último adeus. Que não é último, se preservarmos o que há de melhor em nossas lembranças.
Carregando a sensação do dever cumprido, partimos em direção ao táxi enquanto Kátia contentava-se em comentar seu feito e falar dos preparativos que faria para que o Luck tivesse o enterro de cachorro mais romântico e florido do mundo.
Kátia se via tão envolvida naqueles planos de homenagear o Luck, que dava a sensação de que o finado teria a presença do padre e tudo. No fundo eu sabia da verdade, mas não queria estragar seus sonhos. Por outro lado achava que deveria, porque sei o quanto ela pode suportar.
Em meio a esse conflito de digo ou não digo, sou fitado por um Pastor Alemão cujos olhos aborrecidamente negros não deixavam os meus. Me encaravam com valentia. Senti que aquele sinal era mais um aviso de Deus. O Luck usou aquele cão para exigir que eu contasse toda a verdade sobre o enterro. Então não exitei. Abracei Kátia com um dos braços, e com o outro apontei em direção ao cemitério e disse:
- Kátia, sem querer estragar seus preparativos de amanhã, mas... tá vendo aquele amontoado de gavetas lá no alto, uma ao lado da outra, típicas de arquivos de escritório, bem bregas... tá conseguindo ver?
- Tô. Carambaaaaa (era muita letra “a”). Nossa mãeeee (era muita letra “e”). Dar de cara com esse troço vai poluir o visual do funeral. O que é aquilo? Que gavetas feias, né?
- É, Kátia.
- Que foi?
- Nada.
- Te conheço, você queria me dizer alguma coisa e travou. Sou psicóloga, menino, não adianta me enrolar. Vi que você tremeu os lábios.
- Nada. Bobagem minha. Coisa sem importância.
- Fala. Eu tô falando sério... é melhor falar.
- É que... sabe aquele Pastor Alemão ali?
- O que é que tem?
- Deus mandou ele para te dizer que na verdade...
- Na verdade o que?
- Na verdade... merecemos comer na pizzaria Guanabara depois de tudo o que passamos hoje. Topas?
- Ai que susto... Ótima pedida. Motorista, de volta ao Leblon.
Fim
Essência Canina
Só é possível dar crédito a seres pensantes. Fato. Somente eles participam da limitada escala do perdão e do julgo. Esse negócio de se apegar ao animal pela fidelidade sem riscos é de uma previsibilidade um tanto quanto enjoativa. Prefiro me agarrar a imperfeição da essência humana, que tanto frustra, que tanto alegra, que tanto, ensina.
Nada contra animais. Pelo contrário. São tão simplórios que não vejo graça no convívio. Ou você os ama. Ou você os odeia. Ou você os ignora. Dificilmente conseguimos fugir desses extremos. A relação humana é mais profunda e variável, pois permite que vivenciemos as três sensações quase que ao mesmo tempo, e pelas mesmas pessoas.
Creio que antes da paz eterna, ou da eterna guerra, é preciso haver conquistas que justifiquem o zelo. Os animais em geral não permitem tal idiotice.São mais instintivos. Seus sentimentos não são compráveis ou conquistáveis. Você pode seduzi-lo com uma carne suculenta... mas não será o prazer de um momento que o fará mudar de opinião. Suas escolhas são surpreendentemente estúpidas e por vezes se dão por aqueles da família que menos lhes prestaram amor - talvez por se tratarem daqueles que mais necessitam.
O animal doméstico tem este generoso dom, o da sensibilidade bruta, sem hipócritas lapidações. Tudo o que faz é sempre puro, primitivo, verdadeiro. Aonde lhes falta razão, jorra emoção. Só mesmo a irracionalidade é capaz de apresentar os instintos mais honestos... cada vez mais raros em nossas essências. Ou seria inexistente?
Nem um homem no decorrer da vida será mais verdadeiro do que qualquer outro animal. Sua "superioridade" está atrelada a sufocante coleira comportamental. Nos momentos em que decide quebrá-la, entra em confronto com a própria espécie, cuja categoria não possui o benefício da desculpa... precisa carregar no ombro a felicidade do risco que deu certo e valeu a pena, ou do arrependimento daquilo que não pode ser desfeito ou consertado.
Sustentar a marca das glórias e das derrotas promovidas por nossas explosões animalescas faz parte da vida de qualquer ser humano. Através daí é que devemos olhar pra dentro e melhorar. Essa imperfeição em relação aos animais, essa racionalidade que nos regula socialmente, confrontando razão e vontades no sentido mais puro e louco do querer, é o que nos torna melhores do que eles que, independente da quantidade de bronca ou de porrada que venham a receber, sempre farão com que limpemos a merda...
...o que não é sacrifício algum, já que a raça humana possui o estranho hábito de escondê-la debaixo do tapete, deixando apenas um odor evidente para os que possuem o faro de separar o bom do perverso. Nossas atitudes exibem – e exigem – malícia o tempo inteiro. Talvez por isso eu seja apaixonado por viver latindo e abanando o rabo pras mais adversas fragâncias humanas, já que somos farelo da mesma ração, com pequenas variações nas embalagens.
E no momento sinto que minha marca anda meio estragada. Alguma coisa, ou a falta de alguma coisa, anda afetando meu coração. Sempre disse que no dia em que meu cachorro morresse, o condomínio inteiro daria uma festa, que eu não via a hora desse dia chegar porque eu estava cansado de levar mordidas repentinas, e que todos fariam uma comemoração inesquecível para se despedir do defunto que nunca foi bem quisto por 90% dos que tiveram a oportunidade de conhecer a dor de sua mandíbula vira-lata.
Pois é. Hoje ele faleceu e eu não consigo apagar as palavras que disse. Não que por vezes ele não merecesse ouvi-las, mas porque ele, diferente de mim, não pensa. Nunca pensou. Quando odiou, rosnou de verdade. Quando amou, o fez na íntegra, sem jogatinas. Quando precisou defender o que era dele, encarava qualquer parada. Nunca fez questão de ser querido por ser verdadeiro e autêntico.
E ele estava certo. É preferível ter 10% de amizades bem administradas do que 100% de incertezas. E pra piorar só me vem à cabeça os momentos bons que tivemos, que não foram muitos, mas proporcionaram boas risadas. E no bem que ele fazia aos meus pais.
Nas últimas semanas ele insistiu em buscar aproximação com todos da casa, como se quisesse consertar o rumo das coisas e isso me causava mais desconforto. Senti pena ao vê-lo fraco, desistindo da vida... me fazendo sofrer quando eu deveria me sentir aliviado. É estranho mas parece que amor e o ódio são realmente sentimentos interligados.
Hoje, ao colocá-lo dentro de um saco preto, pegar em suas patas frias e endurecidas depois de vê-lo gritar de dor na noite anterior, com uma vontade louca de ajudá-lo há dias, mas com medo de tocá-lo devido as orgulhosas lástimas do passado, percebi que minha chefe tinha certa razão. Aprende-se muito com os bichos. Ela só esqueceu de dizer que se aprende mais com as perdas. E que as lutas, entre ambas as partes, podem ter sido o maior sinal de afeto, coisa de irmãos que não desistem de ver no outro uma possível melhora.
Aprendi, não sei se com minha chefe, ou com o meu cão, que a racionalidade e a irracionalidade possuem mais semelhanças do que aparentam. Caminham juntas, num precioso confronto. Conseguir equilibrá-las é o caminho mais próximo da evolução. Animal e espiritual.
"Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor”. - Vladimir Maiakovski.
Axé Mainha Dois
Quando resolve cantar MPB o sentimento de admiração triplica. A voz é de qualidade indiscutível e a presença de palco condizente com a energia que a mantém por mais de uma década como ícone da cultura baiana. Sem sombra de dúvidas uma das melhores cantoras nacionais da atualidade. Gostaria até que ela trocasse o Axé – nada contra, apenas preferência musical - e se jogasse de corpo e alma na MPB. Mas isso são outros quinhentos.
Falando em quinhentos, gostaria de saber que valor ela visionou ao beijar Aline Rosa na gravação do DVD da Banda Cheiro de Amor. Sim, porque não acredito que tal carinho tenha sido uma expressão espontânea de afeto, sem segundas intenções como, por exemplo, a de criar um frenesi na mídia elevando o nome das duas cantoras enquanto conseqüentemente alavanca as vendas do DVD que, tá se vendo, precisa de um empurrãozinho mais caliente.
Novamente o espetáculo impera sobre o valor humano através da autopromoção apelativa. De certo que lesbianismo e Homossexualismo são opções sexuais e merecem todo o respeito da sociedade. Agora... lesbianismo forjado, não. Os fins são sempre demasiados, mesquinhos e desprovidos de verdade. Até o dia em que esse tipinho de atuação deixar de ser suficiente - já que a tendência é querer sempre mais -, daí nos sobrará apenas a possibilidade de recuarmos com tais maluquices ou então vai todo mundo sair por aí comendo todo mundo.
A idéia de gozar sem sacrifícios não me parece má opção. O problema é ignorar o sentimento da propriedade, do ciúme tolo... por vezes sadio, do romantismo que ilude com a mesma eficácia que nos mantém de pé, entre outros valores ainda impregnados na turbulenta sociedade pós-moderna, que como eu, necessecita dessa balança de verdades e mentiras das quais não sei se quero abandonar. A sociedade Alternativa pode até parecer interessante em teoria. O problema é que o gênio que a praticava morreu jovem, depressivo e pra lá de alternado. O mago só se safou porque provavelmente deixou de ver magia naqueles ideais de libertação. “Faça o que tu queres, pois é tudo da lei”, pois é, faça o que tu queres.
A Daniela fez. Beijou, mesmo que de forma carinhosa, uma outra mulher na frente de milhares de pessoas, dentre elas adolescentes que pelo processo de aprendizado da fase tendem a buscar ídolos a fim de alimentar a carência natural de referências que lhes gere no mínimo um reconhecimento, nem que para isso seja preciso imitá-los na íntegra - prova disso é o surgimento de um exército de aspirantes a lésbica-artificial que cresce a cada dia. Qualquer adulto tem noção que este tipo de comportamento é imposto pela mídia. Qualquer mãe de dois filhos como ela é, tem ciência do leque de interpretações que um gesto como aquele pode transmitir.
Uma pessoa de carreira consolidada. Embaixadora da Unicef e da Fundação Ayrton Senna. Colaboradora de inúmeras campanhas voltadas para crianças e adolescentes não pode, em hipótese alguma, agir da forma como agiu. Por mais inocente que a brincadeira tenha sido - o que eu não acretido - sempre provocará resultados que, por mais careta que pareçam, não serão benéficos.
Não faz muito tempo, desabafei aqui a respeito de que existem várias formas de se vender e que se promover não é errado. Todo mundo se vende o tempo todo e é bom que seja assim. Só que a Daniela escolheu a forma mais apelativa e menos responsável. É preciso ter um pouco de ética ao se promover, senão vai ficar igual ao Almodóvar, que utiliza ferramentas que chocam a sociedade para produzir filmes que o fazem, na visão de alguns apreciadores, um gênio. Eu discordo. Acho ele muito bom, mas genial mesmo é quem consegue se diferenciar fazendo um grande filme com fórmulas padrões, isso sim é difícil, sair do padrão dentro do próprio padrão. Inclusive a divulgação de seu último filme é o beijo entre duas gostosas - só se fala nisso e não no filme em si. Não entedo nada de cinema a ponto de fazer uma crítica consistente, mas fazer sucesso assim é bem mais fácil.
A Daniela optou pelo simples, como quem precisa de qualquer maneira recuperar o auge de um período que a manteve nas paradas de sucesso com o estouro do álbum O Canto Da Cidade, que por "coincidência" acaba de ser relançado em comemoração aos quinze anos de sucesso.
Sei não, essa atitude inesperada dela... a necessidade de apostar no briho do passado, tudo isso tá cheirando a estratégia de reposicionamento e atitudes desesperadas como essa, ou visam alcançar o brilho que talvez tenha se perdido no tempo, ou só pode ser alguma tentativa ambiciosa de alcancar o prestígio do furacão Ivete.
Desculpem, mas como marketeiro envenenado que sou, não acredito que tais ações venham desprovidas de pretensões. Mas tudo bem, não será um simples beijinho que porá minha admiração por água abaixo. Com certeza aquilo foi influência do marketing e da assessoria de imprensa para causar suspense em todos os punheteiros de plantão e aspirantes a lésbica-artificial que certamente comparecerão as lojas para matar essa curiosidade gerada pela ceninha tosca entre duas cantoras de repercussão. O beijo ainda permanece em suspense. Ninguém sabe se foi de língua mesmo ou uma simples bitoquinha....
... só sei que a fotinho acima mexeu comigo e sempre mexerá. O problema é que ainda pretendo ter uma filha. E o mínimo que poderia desejar é que no futuro lhe fosse ensinado alguma coisa que esteja mais próxima do sentido de realidade. As escolhas sexuais serão de livre e espontânea vontade dela, desde que procure ao máximo se promover sem precisar chocar niguém.
Fecho com a frase de Aline Rosa à Globo.com :
E como foi aquele beijo com Daniela?
ALINNE ROSA - (Risos) Foi uma brincadeira, só um carinho entre amigas. Rolou espontaneamente. Estávamos cantando “Uma Noite Meias”, da Marina Lima, e brincando com a interpretação.
Espontaneamente?
Bom.... façam sua apostas. Eu já fiz a minha e tá valendo blefar.
Aparta Que é Briga
Uma amiga pediu para eu descrever a experiência que tive no Reino Unido e me sinto incapaz de expressar o que se passou, até porque ainda passa. É complicado mexer nas voltas de um caldeirão de eventos que se recicla a cada instante em temperadas etapas. Foi necessário aspirar o Rio de Janeiro outra vez, digo, o imaginário patriótico-ignorante que mantive na cabeça antes dela ser completamente chacoalhada de devaneios otimistas e pessimistas que brigam feito irmãos que nunca se deram bem e que, por intermédio do sangue, não conseguem se livrar um do outro.
A fraternidade os impulsiona a morderem-se incessantemente até que cada ferida viva adquira a cicatriz do consenso, para daí encararem a verdadeira tomada de decisão, aquela que gera mudança na essência, trazendo paz, segurança, autoconfiança, respeito mútuo, aceitação do que não pode ser mudado, entendimento de que o desistir não precisa vir carregado de frustrações ou sensações derrotistas - como se o fracasso tivesse que ser culpa de um, ou de outro. Como se a desistência não pudesse ser, também, uma alternativa positiva ou talvez a saída mais curta para a vitória pessoal, independente da cara que ela queira ter.
Não se abandona as dúvidas assim... sem arriscar tudo o que o coração ou a razão - depende de quem falar mais alto - exige. É preciso ir até o limite do sustentável, pirar, enlouquecer sem jamais ceder a caprichos irrelevantes. O excesso no jogar, tende a ferir os dois lados da moeda e mexer nesses extremos só provocaria mais discórdia entre os dois irmãos, intensificando a violência e confundindo os verdadeiros desejos, resultado da inércia em que me encontro agora.
Enquanto este dia não chega, enquanto o otimismo e o pessimismo que me governam não atingirem maturidade necessária para ao menos me dar equilíbrio nos momentos decisivos que me definem, minha gaveta, pra lá de bagunçada, guardará aquilo que pode ser passado, dobrará o que pode ser vestido e vestirá, diante do espelho da opinião esdrúxula, cada combinação quadrada, seja errônea ou assertiva, do meu novo sentido de belo, agora comandado apenas pelo amor próprio. É por ele que troco de roupa.
Mudar é bom, faz parte do trajeto. Assim se comportam os indecisos. Suas buscas inseguras quase sempre geram lindas metamorfoses. Mudamos porque somos assim, seres inconformados, graças a Deus. Porém é importante encontrar a hora exata entre a dúvida e o tempo. Porque este é irônico. É sarcástico. É filho da puta. Guerrear pela felicidade é humano, natural e até saudável. As armas utilizadas nessa penosa conquista é que vão definir o caráter humano. Tem de se ter cuidado em cada atitude para não fazer do desejo de mudança uma fábrica de atrasos.
É preciso se impor na mesma medida em que se faz necessário ajoelhar-se diante de um erro significativo. O perdão pode abrir portas. O orgulho certamente as fecha. Mas a falta de amor próprio, esta sim pode torná-lo um verdadeiro bucha, fadado a virar escravo da demagogia, sócio frustrado da reveza de falsas opiniões, que através da carência de capacidade para formar uma personalidade de máscaras propriamente sólidas, terão seus infelizes egos viciados em dias de sorrisos vãos. De larguras nem sempre verdadeiras, que servirão de alimento para uma vida cercada de medos e frustrações.
Enquanto as mordidas rolam solta, expressarei apenas o que sinto nesse exato instante, porque o amanhã pode me convencer de que o ontem não passou de invenção, e de que o hoje corre sem ser notado, porque os malditos irmãos não param de brigar.
Disseram a eles que quando se prova uma experiência de vida fora, a cabeça muda, a visão de mundo gira e a pessoa fica completamente dividida entre otimismos e pessimismos em relação a vários fragmentos da vida, como amores, amizades, família, lugar ideal para se viver, tudo entra em transe. Essa estranha desterritorialização desperta uma certa vontade de partir de novo. Mas para onde, e para que?
Prefiro pensar que não estou dividido. Fui multiplicado. Dessa soma vantajosa retirarei poderes suficientes para tomar decisões conscientes. Como se a saudade não entrasse para apavorar. Como se eu não enxergasse, de uma hora pra outra, a juventude carioca como uma das mais mal-educada, embora não tão perdida, e arrogante do planeta. Como se eu não achasse o país uma zona, uma desordem urbana sem controle em que a violência, o medo e a corrupção, apadrinham a cultura vergonhosa do jeitinho. Como se eu não achasse a comida inglesa uma porcaria, o tempo digno de suicídio, as pessoas fúteis e vazias, por vezes frias, sem a menor noção do que se passa fora daquele "Reino Unido".
Pelo menos era prazeroso ir pra casa sentindo uma paz indescritível reforçada pela segurança de um governo que respeita seu povo. Aonde o jovem, geralmente da direita, não precisa estufar peitinho e colocar corrente de prata no pescoço para se mostrar viril, ou, em sendo de esquerda, ninguém de barba por fazer puxará um trabuco de maconha - já que é proibido - enquanto ouve los-hemanos e reclama da vida e do sistema numa rebeldia-parasita. É óbvio que tô generalizando, mas às vezes o Rio parece ter sido dividido em dois padrões de juventude - salvo excessões, muitas. Uma querendo aparecer mais que a outra sobre diferentes formas e isso cansa. Ninguém realmente faz algo para mudar. Qualquer protesto toma forma de carnaval. "A esquerda é a direita que ainda não assumiu o poder", e só. Os interesses finais são sempre os mesmos, se-dar-bem. Esse país me irrita. Principalmente porque o amo e não quero vê-lo desse jeito. Escravizado. Enfraquecido. Um Estado maravilhoso, que já ditou moda, transformado em referência mundial do turismo sujo. Um estado que exportava cultura, entorpecido pelas doses homeopáticas de algum hipinotizante importado, e pra lá de barato.
A loucura do povo de lá também não fica pra trás. O consumo toma conta de uma forma em que não há tempo para sentimentalismos. Em que o individual impera sobre os indivíduos, formando uma oficina de representação em que para sobreviver é preciso atuar o tempo inteiro. Pobres personagens, atores que vivem em pé de guerra não-declarada, cujas simulações estão inseridas em suas veias desde que nasceram. Soldados criados para serem os melhores. É tudo um espetáculo, que dia após dia também ludibria nossa personalidade. Estamos absorvendo de lá aquilo que eles têm de pior. São medrosos por natureza interna, não há fatores externos que justifiquem tamanho medo, porque segurança eles têm. São masoquistas, adoram sentir pavor, nem que seja inventado. Paranóicos que mal se tocam. Falta afeto. Não é possível brincar com uma criança na rua sem que a mãe pense que você irá roubá-la. O romantismo há tempos virou coisa falida, maluquice de latino. Síndrome de Madeleine do cacete.
Diferentes lugares. Diferentes paranóias. Por enquanto vou assim, comendo pipoca e assistindo a luta bem de longe. Quando meus irmãozinhos resolverem parar de brigar e encontrarem um equilíbrio, viverei feliz, no lugar em que me sentir harmônico, se é que a culpa está realmente no lugar. Perdoem-me as generalizações radicais, sem elas não há fermento. Vai entender. Isso é briga de irmão. Coisa de família... melhor não se meter.
Trancado no Banheiro
Quero novos sabores, quero novos valores. Tô com sede de verdades por viver correndo da mentira. Sim, fugindo dela. E agora me sinto distante e forte para topar de frente com tudo aquilo que acho errado e moralmente inaceitável. Nem que eu morra sozinho, venderei minha essência para me entregar aquilo que dia após dia vejo que não valeria a pena. Eu vim com esse objetivo, o de me dar, o de me jogar. Para mim só importava um lugar e quanto mais eu deixava isso bem claro para Deus e o mundo, mais porrada recebia, até ir percebendo que tratava-se de um paraíso pequeno demais para que eu ancore meu coração, já que o mundo se faz tão grande que as vezes penso que vai me engolir. E já que esta é a vontade da bola gigante e faminta, que assim seja. Mas antes de ser mastigado preciso confessar que ainda não estou preparado, as duvidas estão se despedindo, só que os medos ainda persistem.
Eu estava fraco, precisando de apoio quando resolvi adorar o perigo daquele sorriso, completamente rico em conteúdo, mas sem postura suficiente para roubar meu senso. Faz frio aqui e as pessoas não são metade daquilo que eu esperava que fossem, embora nobres o bastante para me ensinarem a conviver com as diferenças sem precisar aceitá-las como verdade absoluta. A paz e o respeito que essa cidade vende estão calcados na tolerância de um racismo explícito. Ninguém se mistura, é tudo uma farça. Cheguei a triste conclusão de que a paz não é coletiva, mas que a tolerância é o caminho mais próximo que podemos chegar de uma simbólica harmonia. E quem tolera, naturalmente vive em guerra. As pessoas não transbordam metade da felicidade que o Brasil sempre me trouxe e certamente trará, mas não por agora.
Gostaria de ficar mais tempo neste lugar. Por incrível que pareça eu tô gostando desse monstro. Quero brigar com ele ao ponto de sangrá-lo. Seria o único meio de me sentir realizado. Estar longe me faz muito mal. Mas é uma maldade bem-vinda. O isolamento deveria ser lei universal. Todo mundo precisa ficar sozinho um tempo para aprender a enxergar o invisível. Não vou dizer que essa claridade me faz um homem feliz. Pelo contrário, às vezes dói a vista porque não consigo enxergar inocência nas coisas. E por tal poluição não alimento a mínima esperança de uma autosuficiência após o teste de sobrevivência ótica e caótica. Sabemos que existe um fato... é impossível ser feliz sozinho. Não acredito em qualquer escola moderna que pregue o contrário. Mas fiquei alividado ao desistir de amar e odiar intensamente. E justamente por não querer mais nutrir sentimentos tão ruins é que eu estou deixando o amor um pouco de lado. Tô querendo mudar a cara dele, se é que ele algum dia teve alguma.
E essa decisão apareceu no momento em que me olhei no espelho e não me reconhecia mais como homem. Não falo nem do macho. Estou chegando a conslusão de que o machista está ficando pra trás - já era tempo. Falo de um reflexo triste e surrado que me fez desistir de querer visitar aquele lugar. A partir daquela imagem equivocada aprendi que devemos separar palavras e poesias das atitudes. O que conta nessa vida, o que fica registrado no peito, seja bom ou ruim, são as atitudes. Qualquer canalha é capaz de escrever bonitinho. Qualquer mulher é capaz de enganar o mundo, incluindo a si própria em troca de um castelo de posicionamento perante os demais. Eu quero o retorno da bondade, é com ela que vou casar. Eu quero o retorno da compaixão, é dela que minha família foi moldada e são por eles que renego grande parte da minha liberdade. Nunca fiz questão de ser inteiramente desprendido. Até porque, se eu me jogasse em cima de tudo o que me desse na telha, não estaria vivo. Sou doido varrido. Temoo intenso porque o amo. Não quero a porta aberta para declarações ou aventuras que irão me distanciar da paz. Dependo das grades, de certa forma me fazem muito bem. Desculpem se decepciono, mas dispenso a mão de qualquer serrote. Não tenho a menor vontade de fugir.
Nem que eu tenha que apodrecer sozinho nessa prisão de conceitos, o que eu acho praticamente impossível face os milhares de amigos que conquisto a cada dia, e o quanto minha pessoa sempre será agradável, como a melhor das suas danças e andanças, creio eu, embora desconheça seu sapateado. Se você soubesse como meu mundo cresceu, como ele vem se desenvolvendo e o quanto estou enxergando as coisas, valores, conceitos... é difícil explicar, mas você ficaria tão orgulhosa que seria capaz de me render a sapatilha. Eu fiquei calado por questões éticas, desejo até que você fique com a única opinião que possui. Porque eu tô enjoado de tanta artificialidade, de sentir vergonha em ver um egoísmo arquitetado em falsos gestos de generosidade, e tentar consertá-los. Eu quero mais do que uma sacola cheia de roupas que mascaram um rostinho bonito que sempre adorou ser cruel - sim, sabia exatamente as coisas que me feriam, e as fazia. Eu quero o apoio de um ombro honesto. Eu não acredito no que leio. Perdi a fé, não acredito mesmo. Eu fiquei cansado de me dar, de abrir o jogo, de dizer pára... tá me machucando, e sair sangrando do campo de batalha, justamente quando eu estava passando por um momento difícil na minha vida. Cansei de levantar a bola, de dar a faca e o queijo na mão, a receita todinha do bolo, e ser escrachado com joguinhos que só torturavam, com posturas feministas que beiravam a vulgaridade, numa necessidade de afirmação inútil e agressiva. Agora o tempo é meu e o mundo é grande. O verão na europa chegou e eu mereço aproveitar ao máximo esse momento porque eu já disperdicei muito, e eu não vou me perdoar se olhar pra trás novamente. Porque eu não tenho vocação pra corno, nem pra puta. Pronto. Gozei.
Tem um rato no meu quarto
Mas como não posso fugir do problema, resolvi verificar as possibilidades que resultaram na invasão e se alguém andou facilitando a entrada. O abusadinho não invadiria meu quarto, que fica no segundo andar da casa, sem antes aproveitar as maravilhas de uma cozinha com pratos por lavar e objetos comestíveis não indentificados pelo chão. É certo que alguém está me pregando uma peça. E vai ter troco.
Antes de interrogar os membros da casa, principais suspeitos, resolvi periciar bem o quarto e constatei que não houve um terceiro elemento. Em compensação encontrei um pequeno buraco que dá passagem pelo guarda-roupa anexado a cama. Tudo me leva a crer que a residência do roedor pode, sim, ser real e assim sendo terei que adiantar as investigações o quanto antes para chegar a um veredito final.
A situação está se agravando. O tempo é curto. Não posso me acostumar com esse tipo de convivência... preciso de respostas. O bicho transmite doença. Faz barulho. É feio de dar dó e além de tudo é cinza - se ainda fosse daqueles branquinhos de laboratório eu até relevava.
O fato da possibilide da gente estar rachando o apê ainda não passa de suposição. Não existem provas concretas que o infeliz retornará amanhã, e de que aquele buraco, de fato é sua residência. E por ausência de fatos que possam incriminá-lo por invasão de domicílio ou propriedade privada, como por exemplo um cocozinho nos arredores da suposta casa ou marcas de mordidas no carpete, eu, na condição de medroso e dono do quarto, digo que o animal é inocente. Sim, prefiro morrer na dúvida do que prosseguir com a busca.
Sabe como é.... é que nem namorada, melhor não saber para não ter que tomar uma atitude. É confortável imaginar que o infeliz estava apenas perdido e logo vai reparar que não há comida suficiente e vai vazar. E eu tô rezando muito pra isso.
Se eu souber que ele está morando no meu quarto, perto da minha cama, a paranóia vai triplicar. Além da insônia, vou achar que ele tem amiguinhos e muitos familiares e que todos estão bolando algum plano “leptospirótico” de invasão em massa. E sendo assim, eu terei que comprar algum veneno, ratoeira, ou o que for menos doloroso, mas terei que matar uma família inteira, um povoado, talvez. Seria um genocídio duro de roer.
Digo isto poque nunca matei ninguém – já tive vontade de esganar muito dos meus ex-amores, mas nunca matei ninguém. Formiguinhas e baratas é uma coisa. Basta um pisão e pronto, dá até para posar de viril. Mamífero é outra, malandro. Envolve sague, tem que ser cabra macho... vai ter que dar explicações do assassinato lá em cima.
Eu e o invasor pertencemos a mesma classe de animais e eu nunca sequer feri um vertebrado em toda a minha trajetória, nada que tenha osso, nem mesmo uma galinha. E de uma hora pra outra me vejo numa situação aonde tenho que decidir vivar homem e deixar de ser um rato - olha que irônia. Virar homem através de um rato. Mas que seja, está mais do que na hora de eliminar tudo o que rói.
A Cidade Adormeceu. Ou Será Que Fui Eu ?
Acabo de asssistir ao filme Cidade dos Anjos e mais uma vez embarco no mistério das almas e dos desejos que nos cercam de dúvidas e inquietações quanto ao real motivo de estarmos vivendo. Acho que ninguém está livre dessa neurose existencial - a de ficar se questionando a esse respeito. Afinal quem nos criou? Por que estamos aqui?
A natureza é uma icógnita perfeita de estranheza atraente que exala um cheiro de óbvio flutuante, basta tragá-lo para obter a certeza de que existe alguma força maior que nos rege. Faltam apenas... respostas. Dúvidas tais que religião nenhuma será capaz de preencher. As lacunas ficam por conta da fé, comandadas pelo cortesia do livre arbítrio, progenitor do amor e do ódio, da paz e da guerra. Pai das escolhas e das discórdias mais ordinárias. Conselheiro dos rumos, das trajetórias, das opções.
O filme narra a história de um anjo com curiosidades aguçadas pelo cotidiano humano que se apaixona por uma médica e por ela decide ingressar ao patamar de um ser humano comum para vivenciar as sensações somente a nós oferecidas, dentre elas o amor carnal, sentimento considerado primitivo aos olhos dos Deuses.
O marcante da romântica história se dá após a transição, quando o ex-anjo decide comer uma maçã pela primeira vez. Foi incrível vê-lo valorizar cada pedaço no ritmo certo. E assim ele o fez com as sensações da carne, do apetite, do sono, da lágrima, do amor, do bom dia... tudo tinha um significado glorioso - até mesmo o sofrimento. Nada era apressado, e sim apreciado, o que me causou certa nostalgia, pois não somente falta tempo para apreciar o valor de uma maçã por inteira como vem se extinguindo o dever de produzir uma razão ao paladar. As pessoas vagam nas feiras livres. Perdem-se entre as amostras frustrantes. Provam de tudo aquilo que não preenche a satisfação pessoal, desnutrindo o apetite da própria alma por não conseguirem administrar a nova cara da fome. Agora negra, sem bandeira, sem pátria, sem patrimônio, sem matrimônio... sem chão.
Será então que estamos mais pertos da divindade e esse desapego todo pode ser um bom sinal? Será que os anjos estão querendo uma vaguinha, já que estamos a cada dia mais individualistas? Será que estamos nos tornando, anjos?
Eu compreendi que sim. Mas só em alguns casos. E o processo ocorre através das modernas raves. Vou explicar.
O filme aborda que somente os anjos são capazes de ouvir o som do pôr do sol. Reúnem-se diariamente numa praia deserta e nela celebram o cântico da estrela maior numa espécie de rave angelical. Todos parados, de luto, com uma seriedade antipática - a mesma antipatia que deu origem a este texto cheio de parábolas pretensiosas - , o que me fez crer que em verdade os anjos não estavam ouvindo absolutamente nada. Aquilo era um protesto trabalhista. Estão todos revoltados com as condições impostas por seus superiores. Cansaram de passar o dia inteiro dando assitência a vidas inúteis e cheias de pecados, tendo como recompensa grega o desprazer de terminarem o dia de pé, com a cara pro sol, numa roupa preta e abafada enquanto aguardam a trombeta do anoitecer anunciar mais uma longa jornada de trabalho.
Notem, senhores, que o anjo passou o filme inteiro sem sorrir. Depois que virou humano é que foi capaz gozar da felicidade plena, daquelas que só uma criança é capaz de transmitir sem deixar intrigas, o que me fez crer que estão todos querendo o nosso lugar. Tudo o que os anjos desejam é pegar um bronze, cair no mar e tirar aquela roupa sufocante e apertada para gozar das dádivas que somente nós, humanos, podemos apreciar. Temos tudo o que os anjos mais desejariam e não damos o devido valor. Santa ingratidão.
Em contrapartida, os humanos adeptos das raves, insatisfeitos com a vida na terra estão se preparando para virarem anjos, manifestando seus desejos através de um culto intergaláctico cujo o som está fora das capacidades auditivas de um ser humano comum. É isso mesmo. Os ravianos estão em outro patamar, inseridos em uma manifestação lunática que dura até o amanhecer. Passam a noite toda orando em danças que seguem um padrão de similaridade enjoativo enquanto aguardam anciosamente o momento da transição. Que se Deus quiser chegará rápido. E pra ser honesto, já vão tarde. Que venham todos os anjos aproveitar este planeta como se deve. Amém.
De fato, irmãos, não é nada saudável misturar raves com religião - que me desculpem os mais devotos pela "inocente" brincadeira. Seria até reacionário da minha parte querer convencê-los de que este comparativo é para ser levado a sério. De maneira alguma. Rave é apenas um ritual malígno e nada demais. É a celebração do apocalípse na terra e nada mais. É o retrato mais evidente de que o fim do mundo está próximo - depois da Vila Mimosa, que para mim é o inferno na terra - e nada mais.
Vamos perdoar aqueles estranhos fantoches que se reunem numa praia em que homens sem personalidade admiram mulheres com lesbianismos artificiais. Malabaristas cheios vigor exibem suas graças coordenadas por fogo, muito fogo. Doses de acidez em pequenos tabletes animam o exército de andróides autosuficientes em suas manifestações sustentadas por milhares de raios laser que dão luz ao caos individual comandado por um tipo de som que é tão desgovernado quanto a dança, que mais parece um manifesto medíocre-alienado que me faz sentir saudade do movimento Hippie. Este pelo menos era em represália a guerra do Vietnam. Tinha uma indentidade defendida em atos rebeldes que visavam a paz e o Amor. Existia um sentimento meio doido de passar uma mensagem ao mundo, mas existia. Agora me diga: qual o propósito de uma rave?
Nennhum. Aquelas pessoas literalmente estão opacas, alienadas, sem atitudes, nuas através daquele maldito som hipnótico de melodia barata, sem letra, sem expressão, sem propósito. Eu já fui algumas vezes naquele inferno, confesso, mas apenas para tentar me acostumar com as novas tendências sem atacá-las tanto, só que tal atmosfera sempre me desgasta. Volto pra casa com a triste sensação de que o mundo poderia ser menos imbecil. Quem sabe até um pouquinho menos escravo das mesmices entorpecentes porque eu não aguento mais tanta ressaca. Falar nisso, que horas são? Eu sabia que não deveria ter ido. Estou com dor de cabeca e a médica terminou o filme morrendo atropelada, deixando o anjo sozinho na terra. Não consigo parar de olhar para essa privada. Mas o anjo, mesmo sem ela demonstrou estar muito feliz pela troca. As sensações humanas mais comuns o completavam. Louco, de fato era um anjo muito louco. Afinal a natureza é uma icógnita perfeita de estranheza atraente que... não, chega. Nem eu me aguento com essas parábolas. Sempre me dão fome. Preciso comer alguma macã. Acabei de chegar da rave e me curti bastante, quase que virei um lindo anjo se não fosse tudo tão feio. Mas a noite virou. Sei disso porque acompanhei as vozes. O problema é que não encontrei nada pra comer. Aonde eu acho uma maça nessa porcaria de casa? Malditas bruxas. Preciso dar descarga porque eu tô vendo meu reflexo e a coisa não tá legal. Quero mais não, chega. A bela adormecida ficou o dia todo largada naquela praia, jogada em seu mundinho eletro. As ondas não paravam de judiar da coitada. Eu bem que avisei. Vai se afogar. Louco, de fato era um anjo muito louco... aquela teimosa. Agora mais do que nunca eu quero saborear uma maçã por inteira... mas por favor, que seja devagar porque minha fome agora é sem saída. E aquele DJ, puts... que cara maluco.
O Pequeno Príncipe. A Pequena Bêbada. O Grande Hipócrita.
- Pera ae... preciso falar contigo. Quer café?
- Não, obrigado, já estou de saída.
- Saída? Calma ae... tô te achando meio tenso, apressado... fez alguma coisa errada?
- Não. De maneira alguma... tanto é que a trouxe aqui.
- Sei lá. De repente você quis aliviar sua culpa ou acobertar algum amigo seu. Alguém tocou nela?
- Você é maluco. Qual a sua preocupação se ela me disse que não tem parente nenhum aqui?
- Não tem é o caralho. Maluco é o caralho. E ela não é apenas uma colega de quarto como você também não é meu amigo - os palavrões ajudaram. Questão de posicionamento.
- Pega leve. Ela estava na mesma festa que eu e só bebeu além da conta. Eu apenas a trouxe porque não tinha ninguém para fazer isso. Minha namorada está naquele carro me esperando, quer que eu a traga para ver se você se acalma?
- Tudo bem, tudo bem... só me diz o que ela tomou. Ela só tem 17 anos e ninguém para tomar conta e os pais moram na Venezuela. Vê-la nesse estado me deixa sem saber o que fazer. Pode deixar que eu resolvo e vai lá que tua namorada está te esperando.
- Ela só bebeu além da conta, cara, já disse, só isso. Acho que você deveria relaxar e tentar se lembrar da época em que tinha a nossa idade.
Aquela frase me fez dormir sossegado quanto ao que poderia ter ocorrido com ela, ou seja, nada demais. Apenas um porre.
O problema foi acordar com a lição de moral de um moleque que me fez relembrar meus sensuráveis dezessete anos. E pior... que já se passaram dez anos desde que completei a maioridade. Ou seja, eu solto os palavrões e ele vence a luta. Pedindo para eu relaxar numa educação britânica, enquanto me apunhalava o sono numa agressividade Gauleza.
Ai... se eu pego o desgraçado. Mas fica a velha máxima de um futuro papai hipócrita: faça o que eu digo. Mas se ousar aprontar metade, leva uma surrra. rs...
Axé Mainha
Bom, tudo começou quando de repente em uma das minhas viagens ao site da Globo.com, para saber como anda o Brasil, me deparei com a seguinte manchete: “Ivete diz que está solteira e vai pegar geral neste carnaval” - Algo assim, não lembro exatamente, mas a mensagem era essa, e logo depois ela beijou um apresentador em público, bem no meio do trio - mais tarde soube que era mentirinha da danadinha. Confesso que neste momento o Serginho ainda não passava pela minha cabeça – aliás, ai do Serginho se ele passasse pela minha cabeça, uma vez que me deram uma apelido tão generoso.
Deixando as piadas de lado. Afinal não quero perder o foco. Nele ninguém toca e esse texto está ficando pederasta até demais, vou "retomar o raciocínio". Quando me deparei com a manchete, pensei: caramba, já tá difícil arrajar uma mulher nesse planeta e essa periguete (como ela se anuncia em alguns shows) fica usando a mídia para propagar a putaria feminina, isto sem contar que ela brincou feio ao dizer em pleno trio elétrico que não usa a mesma roupa nunca, expondo todo o seu lado rico e fútil para uma massa de classes sociais distintas, onde muitos nem roupa tem para vestir direito. Obviamente conluí que a Ivete não contribui em porra nenhuma para a sociedade - a mesma que a enriquece. Minutos depois pensei um pouco melhor e lembrei que a Ivete Sangalo faz o Serginho feliz. O cara está sempre de bem com a vida e certamente ela é uma das responsáveis por isso. Eureka!!! A Ivete contribuiu para o Serginho ser quem ele é. Simplesmente descobri o segredo da vida.
Para os que não sabem, Serginho é viciado em axé music. O cara é super bacana, tem um bilhão de amigos das mais possíveis tribos e ainda por cima uma namorada que é uma excelente pessoa. Quem o conhece acredita que ele tenha dois grandes vícios: o Axé, e a Ju. Eu sempre tive um pouco de inveja do Serginho. Inveja não, porque inveja é quando você deseja que aquela pessoa não tenha aquilo que você gostaria de ter. Mas eu desejaria possuir algumas qualidades do cara. Deve haver algum segredo para alguém ser tão bem chegado e popular, não é possível. E no caso do Serginho, só pode estar no tal do Axé. Resolvi ir em busca do mesmo mel. Comecei a vasculhar várias letras de Axé e não encontrei uma que falasse em fracasso - ou dor de corno - , como acontece muito no samba e no sertanejo, e na MPB como um todo. Pelo contrário, são músicas românticas praticamente não mela-cuecas que na maioria das vezes elevam as pessoas. Agitam as massas.
Portanto é isso aí, meu rei. Palmas para Ivete. Vaias para mim. Fui um perfeito idiota ao ter pensado mal de quem só acrescenta. Saca só parte das letras de Mainha:
“Então não me conte seu problemas, hoje eu quero paz eu quero amor. Então nao me conte seus problemas, nada de tristezas nem de dor”.
“Abalou, abalou, sacudiu...”
“ E vai rolar a festa, vai rolar...”
Entre tantas outras músicas vindas de uma cantora cheia de vida, que só agrega. Chega dessa sopa de Marcelo Camelo e Adriana calcanhoto, eu não aguento mais. Acho que se bater os dois no liquidificador ele derrete antes mesmo de sair um suquinho de angústias. Eu tentei imaginar a relação dos dois:
- Adriana, "eu que nunca fui assim, muito de ganhar", será que poderiamos nos resolver?
- Marcelo, "rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim será melhor, meu bem".
- Eu "faço o melhor que sou capaz, só para viver em paz"...
- Paz ? "Nada ficou no lugar", Marcelo!!! "Eu quero quebrar suas xícaras, eu já arranhei os seus discos"...
- "Quem se atreve a me dizer"... "Quem te ver passar assim por mim não sabe o que é sofrer em ter que ver você assim, sempre!"
- Esse é o problema. Vocês" Cariocas são bacanas, mas não gostam de dias nublados". Eu quero "um amor em cada porto". Adeus.
Vixe maria. Tô fora dessa coisa cinzenta e melosa, minha manha agora é outra. Vou comprar meu abadá e cair na folia que eu já tô é com saudade. É por essas e outras que a partir de agora eu apoio é a Ivete. Mas nem tanto porque ela está muito atirada. Prefiro a Cláudia Leite - mais centrada, linda, angelical, casada, romântica, demonstra amar o marido e ainda por cima é cheia de axé. Enquanto ao tal do Serginho, só posso desejar que ele nunca perca esse companheirismo e seja o cara atencioso e amigo de sempre. Pena que tem namorada (rs...), mas sendo ela o doce de pessoa que é, só resta ao invejoso aqui, desejar axé aos dois.
“A palavra Axé é de origem yorubá. Muito usada nas casas de Candomblé. Axé significa "força, poder, realização.” Axé, queridos amigos!!!
Entre Blogs e Leilões
Constantemente vendemos mensagens, despretensiosas ou não, que produzem resultados no receptor. É um comércio de sinais entre vededores e compradores de atitudes. Sejam elas inconscientes, impulsionadas ou projetadas. E se os há, é porque alguém as vende através de técnicas - artificiais ou não.
Na maioria dos casos, cada indivíduo sabe perfeitamente o que está comercializando e que efeitos suas atitudes trarão para si. Temos consciência do que estamos propondo quando resolvemos expor nossos símbolos, sejam poesias, crônicas, contos ou o qualquer outra forma de exposição. Sabemos que nossas mensagens serão compradas - as interpretações e seus efeitos é que vão variar.
Tais variações pedem cautela nas atitudes que coordenam a postura, modelando-a em diferentes níveis por elas estarem interligadas à opinião alheia. Niguém está livre da privação. Ninguém é louco o suficiente para fazer aquilo que dá na telha, sem reforçar o telhado.
Quando o faz é para tentar quebrar paradigmas e se promover com eles. Ninguém é auto-suficiente ao ponto de tornar-se completamente livre. Para isso seria preciso interferir na liberdade do outro, preço que poucos querem pagar. Os quem decidem são reconhecidos como rebeldes. E rebeldia é venda, pois promove ideais que necessitam habilidades de convencimento.
O ato de escrever, por exemplo, pode ser livre em sua forma de arte, embora eu tenha desconfiança de que alguém escreva sem pensar no leitor como principal carrapato. Ou que toda forma de arte é, de fato, livre. Nenhum escritor produz despreocupado com a opinião daqueles frente aquilo que mais gosta de fazer.
A liberdade de expressão já nasceu presa. Agarrada às inseguranças do criador em relação a como traduzir seu mundo da melhor maneira. Como ele será recebido e se a essência da mensagem será compreendida. Tais cuidados, paranóias, paradígmas, freios, filtros... durante a produção interferem na criação. Afetam o que deveria ser a “verdadeira obra” - que não necessariamente perderá a autenticidade.
Cabe ao autor fazer com que o real sentido de sua comunicação não morra pelo caminho. Conformando-se porém, que não se trata de uma obra inteiramente livre, desprovida de interferências.
Um Blog pode ser criado sem motivos ou propósito algum. Pode não ter uma razão que justifique sua existência. Mas está vendendo a partir do momento em que nasce. Tem caráter comercial e o usuário sabe - do contrário não exibiria seus escritos "particulares" na rede mundial de computadores.
Por favor... é no mínimo estranho. Se há tanto empenho com as palavras é para que alguém as admire. Os que negam estão modificando suas embalagens para “melhorarem” ainda mais a propaganda. As pessoas adoram comprar este tipo de rótulo - já faz tempo que a contra-cultura da moda, virou moda.
Não há inocente. Se alguém só escrevesse como válvula de escape não o faria em um Blog, guardaria consigo. Não capricharia nas vírgulas fazendo de seus problemas elegantes poesias. Ninguém lapida o próprio incômodo, enfeitando o pavão daquilo que deveria ser vomitado de qualquer jeito. Seria um deboche ao seu verdadeiro eu.
Tudo bem que nem todos pretendem transformar o próprio Blog em artigo popular, ser reconhecido como escritor, poeta ou coisa do gênero, muito menos receber comentários daquilo que produzem. Mas nada disso apaga o fato de que estas pessoas gostam de ser lidas.
No meu caso, decidi criar meu Blog num período em que situações críticas ocorriam simultaneamente. Acontecimentos que inevitavelmente me tornariam mais introspectivo, levando-me a inaugurar uma salinha de terapia competitiva na qual eu sabia direitinho o que estava fazendo.
Agora eu já não sei, tô meio perdido com tanta mudança. A sala ficou ampla e as obras não páram. Tento interrompê-las mas vivo renovando a porcaria do contrato. É uma relação comercial de produção complicada, já que me falta intimidade com livros.
E é óbvio que se escrevi decidindo expor é para que alguém aprecie a fachada. Adoro divulgá-la para os que curtem fofocar da casa alheia. Afinal seria prepotência achar que os convidados iriam assistir minha decoração assim... voluntariamente. As visitas são a influência na obra, desde que fique claro que o patrão sou eu.
Romanceio, exagero, fantasio, e que assim continue. Comigo no comando. Tentando agir com autenticidade e se possível irreverência. Abrindo espaço para todos os tipos de comentários. Gosto deles na mesma medida em que detestaria saber que alguém opina por cortesia ou troca de interesses. Não apoio este tipo pirataria - mesmo sabendo que o original não existe.
Acho que devemos nos vender com coerência e comprar com sabedoria. Essa é a questão. Não há nada de imoral em comercializar. Feio é negar.
Venda-se sempre que puder. Só não transforme os verdadeiros sentimentos em produtos perecíveis. Procure a duração. Certamente ela é mais generosa que a fragilidade. Tenha amor pelo seu produto. Suspeite das ofertas vantajosas demais, elas além de cegá-lo podem roubar riquezas. Não venda por vender. Não compre por comprar. Procure trocar com quem lhe faça bem. Jamais caia nas armadilhas do imenso e sedutor mercado à toa, sem achar uma razão benígna. Procure uma causa que o sustente, sempre. E seja você.
Até onde o ser for possível.
Tá dito. Tá pago. Tem preço.
Não promovo polêmica à toa.
Se foi vendido ou comprado, se vê depois.
O dia em que deixei de ser bezerro e perdi o sorriso de Caroline
Não pretendendo bancar o novo puritano ou o pervertido regenerado com tal anunciação, nada disso. Perdi o direito aos treze anos, quando bolinei a empregada de um amigo antes mesmo dos pentelhos pensarem em crescer. E olha que a escolha não foi ao acaso, se deu pela genialidade de mamãe, aquela baiana matuta. Sequer contratou uma empregada gostosa para trabalhar lá em casa. Conhecia muito bem seus bezerros de caça - como costumava chamar-nos - e queria mantê-los seguros daquilo que julgava incorreto até o momento adequado para caçar mulheres que, segundo ela, precisam ser tratadas como um bibelô de porcelana – só que eu não sabia que as porcelanas...
...bom, deixando as bonecas um pouco de lado e focando na crise do meu boneco, porque o assunto em questão é sexo, “vou retomar o raciocínio”. As barreiras que me levam a crer na atual fase podem ser:
Complexo de édipo ultrapassado
Não sei o que se passa, simplesmente não sei. A primeira semana em Cardiff foi uma louvável surpresa. Eram lindas – fiquei com as mulheres mais bonitas da minha vida aqui – e ao mesmo tempo tão ativas que tornou tudo estranho, confuso, inútil, como se uma voz pertubadora dissesse:
“André, sua mãe mentiu pra você. Não existem mais bezerros de caça. Não existem bonecas de porcelana. Aliás, bezerrinho da mamãe, esse negõcio de caça acabou junto com as relações duradouras. Isso é romance dos anos setenta. Te orienta, bezerrinho. Pára de fantasiar. Você não passa de um bezerrinho, zero meia. Voce será consumido em uma noite. Elas vão te pegar e fazer “MUUUU”, enquanto você faz “bé!”. Seu frouxo, “pede pra sair!”.
Pressão por resultado
Fugi de uma chuva de questionamentos para refleti-los longe, em paz e sem cobranças. E agora tô tendo que conviver com a pressão de um Brasil inteiro na expectativa de notícias quentes. Quando ligo para um amigo afim de perguntar como vão as coisas, a resposta é sempre a mesma: Comigo tudo bem, e você ... já comeu alguém!? Em seguida desligam furiosos com a negativa.
Meu melhor amigo não fala comigo enquanto eu não lhe der histórias decentes - leia-se indecentes. Desse jeito não consigo trabalhar. Estou com a cabeça completamente tensa e as mulheres percebem tal rigidez. Basta dançar coladinho que logo ficam assustadas com tamanha precipitação da parte e terminam indo embora por conta da grosseria. Daí eu volto pra casa e tomo um banho para esfriar a cabeça, que fica mais relaxada, se é que vocês me entendem.
Santa de Casa nunca fez milagre
Canalizar minha carência nas meninas da casa seria suicídio. Acabaria comprometendo o respeito e parte da liberdade entre nós. O pior é que a mulher mais interessante que conheci aqui é uma médica residente que está morando no quarto ao lado. A disciplina de Caroline, aos vinte e quatro anos é tudo o que eu queria absorver. Ela corre todos os dias, sempre prepara uma diferente torta a cada domingo, saca quando não estou legal, super segura, conversa bem, divertida, sai com moderação e ainda teve a coragem de dizer na minha cara que se eu continuasse levando a vida do jeito que levo ficarei em depressão.
Não sei se foi ela ou a frase. O fato é que despertou algo e passei a me interessar mais pelo que ela tem a dizer - e vice versa. O clima estava ficando cada vez melhor e para colaborar Caroline preparou uma janta acompanhada por diversos vinhos. Pensei que este seria o dia. Fiquei com tanto medo de nós dois, de estacionar numa vaga estável e faltar gasolina para retornar que, como fulga, soltei dois peidos durante a janta estando apenas eu e ela. No cats, no dogs, ou qualquer inofensivo para culpar. Foram dois para não haver dúvidas de que não se tratava de um caminhão de lixo que havia passado e sim de um brasileiro porco e flatulento. Funcionou como eu queria. Duas semanas depois Caroline invade meu quarto, um pouco suada e aparentemente tensa ...
... tinha acabado de chegar da corrida e queria receber conselhos. Disse estar interessada num médico do hospital onde ela trabalha. Daí pensei... meu peido fez efeito. Saí do patamar de bom partido para irmão idiota. Usei uma estratégia de posicionamento de marketing inusitada e de investimento zero, apenas comida chinesa do almoço anterior seguida de uma pequena contração abdominal. E se existia alguma possível história de amor, se foi quente, pelos ares. Nunca tocamos no assunto e hoje somos ótimos amigos. Ela até já arrota.
Sindrome da desistência
Meu pai sempre martelou-me dizendo que pedra que muito se move não cria limo. Disse que tudo o que eu me intrometo a fazer, faço com extrema competência e depois de um tempo desisto: Fiz natação, larguei. Boxe, larguei. Judô, larguei. Grupo de samba, larguei. Música, laguei. Teatro, laguei. Faculdade de direito, laguei, e recentemente laguei uma proposta de emprego que poderia me estabilizar para viajar pela europa e me largar - e quem sofre com as flatulências é sempre a pobre da Carolina. Certamente desitirei de escrever também, pois de fuder parece que desisti faz alguns meses.
Me esquivava afirmando estar pesquisando o que é melhor pra mim. Mas foram vinte e sete anos de pesquisa sem chegar a uma conclusão concreta. Dessa vez tô tentando experimentar se a solução é ser como ele, que não troca de mulher, de profissão, de carro – Leia-se, Caravan comodoro 83 – e de opinião. Nordestino convicto-invergável. Foi paupérrimo e antes mesmo de criar estabilidade financeira bancou a faculdade de quatro irmãos além de ajudar muita gente. É feliz com o simples, tem lado social generoso. Pela primeira vez estou tentando ser como ele, mas talvez este não seja o lugar adequado e isto esteja me fazendo ficar mais em casa punhetando o inverno do que na rua caçando cabrita. Pobre mamãe...
Sociedade de consumo, mulher da massa
Poderiam ser a solução da minha crise. Algumas mulheres - eu disse algumas - estão com o que eu chamo de sindrome de Britney Spears. É o tipo que precisa estar em evidência no sentido mais tosco da palavra. É um caminhão de problemas. Um baú de inseguranças num mercado onde o homem é um dos principais vilões. As daqui resolveram beijar-se umas às outras na boca, de estalinho e até de língua, seguindo a catilha diária dos tabloides da terra da rainha.
É claro que é excitante assitir uma cena dessas, mas acredito que para tudo na vida deve existir um limite, até mesmo para a fantasia não ser banalizada porque depois disso qual será o próximo passo? Transarem ao vivo? Por Deus. Eu ainda pretendo ter uma filha - isso se eu voltar a fuder.
E se soubessem o quanto a platéia que fica babando é cruel quando o show termina, as tais Britneys não se comportariam como um produto volátil, como vem sendo a vida em meio a tanta correria. É triste ver o consumo e a mídia atingirem essa parte da esfera humana e não tenho dúvidas que o sentido de relação à dois, do jeito que a artificialidade vem imperando, vai sucumbir, dando lugar ao egoismo – e olha que quem vomita aqui é uma pessoa de marketing, de membro desajuizado e que volta e meia obviamente também baba com cada show que vê, mas sempre questiona.
Sociedade de consumo, banalização da palavra
Minha hipocrisia também se vê no direito de criticar a banalização das relações humanas, principalmente por eu ter tido apenas uma namorada, o resto foi banal. Promíscuos são meus irmãos que tiveram várias. Eles, sim, são mais prostituídos que eu. Foram poucas as mulheres que amei. Inclusive acho essa palavra muito forte para ser dita casualmente. Vejo pessoas dispararem scraps umas as outras dizendo “eu te amo” pra lá ou “morro de saudades” pra cá. Lembro que recebi um que dizia: “já estou com saudades”. Caramba, e eu apenas um dia sem ver a pessoa, o que me leva a crer que tá todo mundo amando demais, e sentindo de menos.
Deveriam passar uma temporada aqui, longe de tudo, num inverno violento e misterioso para darem maior importância ao uso delas. Deveriam ser presas por banalizarem essências tão importantes. Quando chegar o momento certo de usá-las, perderá força e não terá palavra que substitua. Mas talvez a culpa seja minha, talvez eu esteja congelando o espírito nessa terra fria, ou simplesmente amadurecendo, o que me levou a poupar palavras sem jamais calar, e a descoberta dos polos.
Sim, a vida moderna é bipolar, não tem jeito. Uma putaria de dois polos: o da banalização do corpo e o da banalização do amor. Catucar os dois ao mesmo tempo banaliza o sentido de “realidade”, trazendo o medo e a insegurança à tona guiados por um egoísmo mentiroso. Meu tempo de pesquisas está acabando. Preciso me realizar na vida. Preciso decidir em que polo permanecer para o resto dela. Ou aceitar que vivemos para viajar em busca de um ser completo que jamais chega, e que não se satisfaz em pemanecer parado. Polos que fazem da vida um termômetro.
E quem sofre com a atmosfera falida sou eu, mamãe, a probre da Caroline, as bonecas de pocelana, os bezerros...
Os Amores de Giovanni
Não era de beleza masoquista. Daquelas que entortam qualquer instinto que as afete, desorientando almas e escravizando carnes sem sequer conquistarem o que realmente pretendiam – o coração de um sábio. Filomena era o oposto da mulher em cena. Ou seja, difícil de enjoar. Transbordava uma atratividade marcante, que ia além do externo, do passageiro. Poucos homens sabiam diferenciar o que realmente importava em uma mulher. Giovani entendia, mesmo sem merecer, que Filomena seria cedo ou tarde o amor de sua vida.
Filomena o evitava. Sabia que naquele jardim não brotavam flores das mais claras. Giovanni ia contra todos os ideais de um jardim perfeito. O problema eram as malditas. Tão bem regadas e cobertas de mistérios que até as mais recatadas fantasiavam as negras pétalas sobre seus corpos interrompidas pelo medo de falharem ao trocarem seus buquês. Um efeito complicado, que poderia tornar Filomena completa. Talvez menos frágil. Talvez um pouco mais mulher. Talvez menos Filomena. O talvez a sufocava - dando a ceteza de que nele existem brechas para respirar.
A força dos opostos começou na igreja San Simplicio, em Olbia, pequena cidade da ilha Sardenha. O excesso de domingos por ali, abastecendo-se de purezas, não bastou para manter a inocência. Filomena sacou que Giovanni tinha assuntos para resolver e não os eram com o padre. Tremeu ao assistir seu pré-moldado futuro em chamas, recomposto por um calor convidativo que a fez aceitar que não seria mais possível continuar vivendo de apenas, brechas. Sentir Giovanni de joelhos, na mesma fileira, passando a mão por entre seus dedos em forma de convite ao desconhecido mais seguro que uma mulher poderia desejar foi tanto, tanto o poder sentido, que Filomena ancorou-se naquela mão, para nunca mais largar.
Sinopses Bartolianas
Vale do rio Serchio, norte da cidade de Pisa. Uma jovem grita por socorro, dois soldados brasileiros haviam saqueado todos os pertences do lugar. Haviam poucos civis para socorrê-la, e os poucos permaneceriam omissos. Completamente despida, Karina chora no desejo de que tudo acabe logo. Sem forças, sem esperanças, abre as pernas para que ao menos a criança sobreviva. Após a ocupação de Massaroca, alguns soldados despistaram-se das tropas que seguiam rumo a tomada de Monte Castelo. Muitos interesses mudavam rapidamente quando o desejo de fazer fortuna em cima do sofrimento alheio corria em veia de determinadas personalidades que se modificavam de acordo com o horror vivido. Nino Magnatano, cabo da Força Expedicionária Brasileira, havia deixado a base para fazer vigília a dois KM do local. Quatro tiros são disparados. A tranquilidade de Nino é interrompida juntamente com o seu cigarro. Ao se aproximar, avista uma criança de cinco anos caída com quatro buracos de bala no peito, os braços entortados, e o rosto completamente esmagado, como se tivesse sido atirada do segundo andar da casa. Assutado e tenso, Nino saca a pistola e sobe lentamente as escadas até se deparar com o inacraditável. Atordoado, grita para que seus compatriotas saiam de cima da frágil mulher. A intenção de Nino era apenas prender os nojetos, já que os conhecia. Mudou de idéia ao receber, entre risos diabólicos e gargalhadas medonhas, sarcástico convite para deixar de ser careta e participar da brincadeira também. Aquilo foi o stopim de uma nova ira. Nino descarregou o cartucho em cima dos dois, sem a menor dó. Morreram pelados sem poder honrar as calças que vestiam. Para piorar, Karina susurra, suplicando para que ele não se esquecesse de dar um tiro nela. Antes de decidir o que fazer, Nino apanha o lençol para cobrir o resto de vida que nela havia, e cai ao chão.
Setembro de 1966. Itália. Família Bertolini.
Nasceu na Sardenha, em 1944. Não digeria muito bem a filosofia dos Bertolinis. Era um submundo pesado demais, doentio demais. Nascera sem propensão para matar. Barti, como era chamado pelos irmãos Leopoldo e Villamar, não compeendia tamanha covardia vinda de seu próprio sangue. Eram os adolecentes mais cruéis da ilha. A facilidade com que a morte era encarada por seus irmãos lhe assombrava a alma. A lei era seca. Seca de sentimentalismos. Seca de revolta por ter que compactuar com os dois vadios, sendo a sombra caçula de uma vida hostil.
Aos doze, ganhou do pai a primeira arma. Uma Magnum semi-automática calibre 12. Filomena sabia da sensibilidade do menino, mas não ousava comentá-la com Giovanni. Temia interferir em sua doutrina silenciosa, resumida por olhares expressivos. Para ele era importante manter os três no limiar do medo e da superação. Tinha um amor paterno calcado nas estúpidas regras de quem viveu do podre.
Consquistou com sangue bruto, pávido respeito, poder e fama. Havia vencido a guerra da vida. Viveu nas ruas, sentiu o sombrio da fome e todo o seu vazio alimentado pelas oportunidades de uma Itália miserável e completamente destruída. Alguns dos seus capangas susurram pelos corredores do grande casarão, que quando criança Giovanni fora violentado por dois viciados, mortos minutos depois. A madeira partida pela metade, onde só se via a fina ponta ensanguentada. O complemento havia sido cravado no anus de cada marginal. Não se sabe se os vagabundos roubaram sua inocênia naquela noite. Ninguém ousaria desvendar o desfecho da tragédia a fundo. Giovanni era temido. Gozava da própria ganância, seu vício mais precioso. Não freiava desejos. Conseguia o que queria. Tinha um orguhoso de si a ponto de não aceitar que contrariassem sua fórmula de conduzir a vida, muito menos suas regras, as mesmas que mantém a família Bertolini no ápice.
Os Bertolinis são donos do cartel da Sardenha, além de inúmeras propriedades onde o dinheiro é lavado. Giovanni tornara-se uma das figuras mais influentes da elite Italia, com participação no meio político e religioso da ilha Sardenha. Sua fortuna ditava muitas regras, fazia-o respeitado, por mais sujo que fossem as origens, por mais limpas que fossem as almas. Todos o aceitavam. Giovanni tinha consciência do tipo de respeito que havia conquistado, da forma como havia constituído um império, e queria mais. Era a único meio de amenizar seus medos.
Dos três filhos, Barti, o sensível caçula, era o mais admirado. Percepitível aos olhos de qualquer um, incluindo os dos irmãos, que se tornavam a cada dia mais cruéis afim de que seus devaneios despertassem os interesses de Giovani, mesmo que por um vão momento. Desejavam receber o mesmo afeto que o prodígio, que abslutamente nada tinha de cruel. Desejavam o mesmo pai.
Giovanni, embora mantivesse com todos a compostura ríspida de sempre, rendia-se as habilidades do menor. Percebia diferença ali, uma forma de ler o mundo com outro prisma. E de fato era o mais inteligente, o único que pensava antes de agir. Era clara a confiança que Giovanni depositava em Barti, e a expectativa de que somente ele conduziria seus negócios com destreza. Aos irmãos, cabia tolerar triste aceitação. Sabiam que o menino não teria estômago suficiente para se entupir do mesmo ódio. Sentiam-se mais maduros e capazes de comandar a invasão dos carteis de Parlermo e Catania, dominado pela família Barras Antunes, e assumirem o comando da ilha Ciciliana para a felicidade de um ausente pai. Respeitavam sua cegueira e preocupados rezavam para que não passasse de ciscos momentâneos.
BREVE... CENAS DO PRÓXIMO EPISÓDIO.
XIX, XX, XXI, Tanto Faz....
Pedrão vivia vomitando machismos inseguros. Bastava ver mulheres conversando e lá estava ele, chocando-as com opiniões atrasadas. Incomodava-se com o pensamento dos outros: feministas são sapatões ou mal-amadas, transar com desconhecidas é um dever viril, casamento é dor de cabeça, monogamia é restrito as fêmeas, maternidade é necessário para dar ocupação à mulher... entre outros delírios exagerados demais para quem teve berço.
Hoje, Pedrão prepara o jantar da Sabrina que chega mais cansada do trabalho, e quando pode a surpreende com presentes inusitados. Sabrina corta as unhas do Pedrão quando grandes e lava seu uniforme do futebol...
Os delírios...
continuam um pouco exagerados.
O Berço...
chega no mês que vêm.
Menina do Meu Outono
É tempo para ficar sereno, andar mais leve, se entregar às calmarias naturais de uma estação que, porventura, assopra. Aceitar o surgimento de novas fases sem grandes anseios. Curtir o mundo mais a distancia. Curtir a vida mais de perto. É clima para agir menos e refletir mais. Não muito quente. Não muito frio. É simples, morno e belo como deve ser o espírito nesse momento. É a temperatura que esclarece um todo, com suave prudência. Planeja o que virá a frente, com ternura. Constrói um presente sem as pressões típicas de um verão, muito menos dos resquícios por ele deixado. O Outono tem o dom de fazer esquecer num sopro lento, e noutro renovar. É um milagre de ventos, num uivar de vaivens.
Naquela tarde, meu café não estava muito quente, mas a vista da janela da cafeteria para o pôr do sol em Ipanema compensava pequenas eventualidades. Havia três crianças ao meu redor, cada qual com um sorvete na mão. Eram dois meninos a implicar com uma menina risonha de olhar cativante. Diziam repetidamente que terminariam o sorvete muito mais rápido. Ela, em defesa, lentamente retirou a colher cheia de chocolate da boca, olhou para eles e respondeu: “Quem come rápido, come menos...”, voltando a tomar o sorvete no ritmo que traçou pra si.
Fiquei alguns minutos tentando entender o que aquela genialidade de cinco anos quis dizer com a estranha frase. Até que o sorvete dos meninos acabou. Um não se incomodou muito com a perda. O sabor para ele está na intensidade de devorar as coisas para obter prazer. Já o outro, em pouco tempo estava completamente arrependido, pedindo um pedaço do sorvete da menina. Agora, dona da situação e do tempo.
Sem perceber... naquele gesto ela anunciava meu Outono.
Lei da Atração e Meus Segredos
Há cerca de nove meses meu comportamento não tem sido o mesmo desde que despertei meu lado sensível de forma desenfreada. O best-seller do momento, chamado o Segredo, aborda o fato de que atraímos tudo aquilo que alimentamos, desejamos, pensamos. Coincidência ou não, cada vez que me proponho a escrever angústias me sinto mais aprisionado a intensidades tristes, vibrantes, e, para piorar, viciantes. Ler ou escrever mensagens positivas no mundo de hoje é caretice. O submundo dos erros, do sofrimento, da violência, das histórias de amores mal resolvidas, das paixões e das buscas infindáveis é a preferência do leitor moderno, que absorve venenosas mensagens na busca de consolo, reconhecimento, referência, atestado de que realmente existem pessoas dentro e fora do universo literário com problemas semelhantes. Poucos lêem mensagens que elevam, que fazem a vida valer a pena, que ajudam a lidar com as distorções sociais.
Tenho um amigo poeta. Ele não sabe se há espaço para pessoas inflamadas como eu no mundo de hoje. Embora aceite sua verborréia, não as admito. Não trocaria meu mundinho conservador pelo universo rebelde de descobertas obscuras que assustam e viciam. Sei disso ao olhar nos olhos dele. E, nos olhos dele, vejo que somos farinha do mesmo saco e pertencemos ao mesmo mundo. A diferença é uma pequena questão de ajuste em nossas peneiras, jamais na farinha.
Percebi que a felicidade vem se afastando de mim a cada passo errado ou introspecção desnecessária que no fundo só entorpece a alma de intensas irritações que me deixam cansado de tudo, desorientado. Os poemas que arrisquei expor não colaboram com a vida alheia. São angustiantes, não elevam o ser humano, não ajudam a reerguê-lo, pelo contrário, promovem, no máximo, desânimos, isso quando promovem alguma coisa.
Minha vida antes de me declinar em sentimentalismos estava mais estruturada. Acreditem, morro de saudade dos freios. Nada mais sábio do que viver o limite. Nada mais saudável que apreciar a arte do simples e todo o seu cotidiano. Nada mais nobre que aguentar as porradas da vida ao invés de filosofá-las como um adolescente em fuga. Falando em fuga, corram dos intelectuais e suas temáticas de que os papos têm sempre que ser cabeça, as buscas sempre incessantes, as pessoas sempre inteligentes e misteriosas e o mundo sempre uma incompreensão absoluta. Alguns amigos de pouco estudo me proporcionam momentos mais interessantes do que os abstraídos em arrotos provenientes de papos profundos, sem pé nem cabeça, que fazem da vida uma massa cinzenta. Fujam das pessoas que promovem shows de arrogância em mesas de bar. São muito chatas e mesas de bar não foram feitas pra isso.
Ignorância é se afastar das dádivas que a vida oferece para egoisticamente vagar em um mundo particular e doentio. As pessoas mais experientes que conheço se sentem na maior parte do tempo felizes quando valorizam o que nós, jovens amantes da busca, chamamos de vidinha entediante. Tédio é entornar o viver para dar lugar a um narrador desconexo de si, um eterno descobridor de óbvios frustrantes.
Já que a vida também é feita de escolhas. Nesse momento fico com a pausa. Viverei novas experiências para descobrir se o tal best-seller está correto ou o palhaço aqui está morrendo. Ou pior, mudando. Pior ainda, se revelando. Se a teoria da atração estiver correta descarregarei mensagens com outros propósitos. Espalharei o que eu acho belo a partir de agora, com rimas ou não. Todos me acharão um saco. Mas tentarei promover o belo, isto se eu ainda for aquele palhaço de antes, com rimas ou não.
Demonstração de amor excessivo é prejudicial a vida
Ame seu filho profundamente, nunca o suficiente a ponto de fazê-lo perceber que pode retirar tudo de você sem demonstrar qualquer gratidão. Ame seus pais, nunca o suficiente para deixá-los seguros de que podem relaxar e dar mais amor ao seu irmão. Ame seu irmão, nunca o suficiente a ponto de fazê-lo preferir os amigos da esquina. Ame os amigos da esquina, nunca o suficiente para eles montarem em cima de você. Ame sua mulher, nunca o suficiente para ela retirar da cabeça o benefício da dúvida de tê-lo. Torne-se insuficiente a todos os seus amores, porque atualmente nada pode estar suficiente pra ninguém. Tentar ser suficiente é ser insuficiente. Substitua a vontade de suficiência pela ausência de vontades.
Talvez... assim você consiga sentir na pele um amor realmente maior que o seu. E aquela sobrinha contida, aproveite-a bastante. Gaste toda só com você. Daí sim, será possível levar uma vida completa...
... de vazios sufocantes.
Expectativa
Prefiro acreditar que não é sentimento da criação humana, tem vida própria. Chega sem ter sido convocada num abuso sorrateiro e vai ganhando força contínua e crescente, alimentando desconfortos, tensões e inquietudes que só findam quando o almejado acontece. É ânsia maligna. Se surge para algo positivo em nossas vidas é como uma punheta: a sensação de glória do antes e durante nunca é recompensada pela do fim. É tão broxante que o sentimento poderia ser traduzido pela plaquinha de “eu já sabia”. Se já sabia que coisas boas iriam acontecer, se já esperava por elas, então para quê foi criar expectativas, caramba? Quanto desperdício de paz, de tempo, com torturas desnecessárias e angustias inúteis que poderiam ser evitadas se não houvessem as expectativas para atormentar o juízo. E quando o esperado é negativo, imediatamente colocamos as mãos em nossas cabeças e num tom de autocrítica soltamos o jargão: para que criei expectativas em cima dessa bosta? E em seguida os jargões de consolação: Eu sabia que não ia dar certo, alguma coisa me falava, tava pressentindo que ia dar problema. Enfim, pensamentos que não deveriam chegar, ou melhor, nem deveriam existir.
Seja ou não uma sensação broxante quando positiva e frustrante quando negativa, e seja ou não uma criação de nossas cabeças, de certo não terei a resposta em vida, mas em vida pude chegar a seguinte convicção: Expectativas não servem pra nada. Pelo amor de Deus... livrem-se delas. Se conseguirem.
Propensão Para Ser Filho da Puta
Queria ter nascido com propensão para ser filho da puta. Eles sempre se deram muito bem. Na minha infância eram os queridinhos das meninas por possuírem requintes de crueldade – a unidade básica de medida. Sempre estive no meio termo da prole. Só não consegui decifrar se isto me classificava como um meio filho da puta. Afinal eu tinha o respeito dos caras e conseqüentemente o das meninas. Um respeito morno, conquistado sozinho, na medíocre submissão de um moleque perdido a procura de um espaço, uma posição respeitável. Um menino do tipo medroso que assistiu a cada maldade como se fosse parte integrante dela, mas ao mesmo tempo não conseguia ser o agente ativo, com quem quer que fosse, sobre qualquer circunstância. Nunca roubou, chutou gatos, enganou cego, traiu um amigo, aceitou troco errado, agrediu alguém menor ou mais fraco. Em compensação esteve ali, compactuando com cada cena de olhos bem abertos e mantendo na face uma normalidade que só o desepero consegue transmitir. Até uma simples implicância com os menos destacados não tinha capacidade de fazer, não possuía estômago suficiente. Como se nascesse sabendo que aquilo não estava correto, que se tratava de atitudes que não fariam bem. Foi duro assistir a tudo passivamente, como um cego em tiroteio, como uma criança meio filho da puta que compactua com o que vê para evitar conflitos, virando a cara para si próprio afim de fazer parte da "elite", coisa que não era bem o meu gênero na época, e sim uma necessidade indispensável e covarde. Só me interessava conviver em harmonia, sem ferir ou ser ferido – uma harmonia muito cara, típica dos sem opinião. Típica de um baba ovo enrustido. Típica da infância - em que qualquer falta de atitude ou identidade pode ser facilmente justificada.
Propensão para ser um adolescente filho da puta
Na adolescência, parte dos maus amigos ingressou na bandidagem enquanto a outra no universo das drogas – não safou um safado. Mesmo assim todos continuavam como semi-deuses para as meninas - como se despertassem nelas alguma adrenalina qualquer que as fizessem subir pelas paredes. Quanto mais ignoradas ou maltratadas, mais gostavam. O impacto era tão intrigante que dava vontade de ocupar uma cadeira. Ser filho da puta era tudo, o ápice do sucesso. O problema era lidar com o fator que impedia de me tornar um. Seria Medo? Covardia? Caráter? Bondade? Vai saber. No meu entender era falta de propensão mesmo. E já que era, resolvi ir a luta e encarar os fatos. Toda aquela vivência me fortaleceu e me fez crer que o mal não nasceu para cruzar o meu caminho. Não havia espaço para conviver com pessoas pequenas. Elas estavam aos poucos sendo limadas do meu convívio. Sentia-me forte o suficiente, dono da situação, com opinião própria e personalidade prontas para revidar afrontas ou covardias e querendo conflitar com todo o tipo de gentalha a qualquer hora. Vivenciei muitas coisas nessa fase, coisas que os olhos viram, o coração sentiu, e a consciência omitiu e guardou. Estava pronto para dar a esperada reviravolta, o desejado revide. Sedento pra virar as costas a todo ser errante que ousasse atrapalhar minha vida. Ganhei capacidade de julgamento como ninguém e um faro canino para detectar filho da puta. Passei a expulsá-los do meu habitat com praticidade direta e agressiva. Tinha prazer em eliminar os responsáveis por roubar minha inocência ao me apresentarem tanta crueldade - a pureza cambaleou, mas conseguiu sobreviver. Tamanha foi a varredura, que praticamente me convenci de que só os reencontraria em noticiários que mostram a podridão diária e as prisões de alguns para fruto de minha vitória pessoal. Pensei que não fosse preciso me vender novamente, como fiz durante toda a minha vida. Pensei ter feito um trabalho bem feito e que não fosse mais encontrá-los. Sentia-me um adulto muito próximo da paz.
Propensão para ser um homem filho da puta para o resto da vida
Mesmo me sentindo um jovem experiente, confiante no próprio taco, percebi que minhas habilidades cresceram em paralelo a dos filhos da puta. Reencontrei-os e me senti um aprendiz, um iludido, uma criancinha de novo, um amador nato. Foi muito difícil detectá-los, só a sorte os trazia. Estavam mais experientes, mascarados e como sempre ocupando o topo da pirâmide – parece que o acerto de suas contas nunca chega ao fim. Percebi estar lidando com pragas nefastas, sábias e imunes que estarão eternamente grudadas no meu calcanhar, dentro do ambiente de trabalho, no dia a dia e até bem próximas do meu leito. Sempre existirão. Minha decepção, de tão grande gerou-me uma convicção: a vida é uma tremenda putaria e eu serei meio filho da puta para o resto dela. Um bastardo sem talento para subir de posto, um elemento sem a propensão básica para obter o sucesso e a felicidade - pelo menos aparente - que vejo brotar na cara de cada filho da puta que cruza meu caminho com um sorrisinho vitorioso. Um passivo, um aspirante a justo sem a propensão necessária no sangue para se consagrar um legítimo filho da puta. Eles venceram. Não tenho vigor para enfrentá-los novamente. Tenho é inveja da capacidade dos que conseguem ou nasceram com tal dom - o de lutar contra e o de ser um. Só me resta agora não ser; aturando cada comportamento hostil calado como um meio filho da puta deve fazer. Brigarei apenas comigo, espancando a consciência rebelde até ela dizer chega: eu prometo que não vou mais incomodar. Que inveja tenho deles. Como é difícil me tornar um. Como é fácil me tornar meio. Que inveja...