Ribamar é corretor de imóveis, oitenta e cinco anos e completamente ateu. Sua fé é calcada na moral e nos bons costumes. Basta um aperto de mão para que se firme qualquer pacto ou contrato. A palavra para este velho sempre valeu muito mais do que qualquer papel, o que o torna, nos tempos de hoje, uma pessoa carente de espaço, um alvo fácil das armadilhas do mundo moderno.
Nunca se intimidou com os avanços tecnológicos. Sabe lidar muito bem com suas limitações. Basta-lhe a velha máquina de escrever, uma agenda rigorosamente controlada e um sapato que não lhe cause calos para fazê-lo honrar as penosas contas do mês. Quando a situação aperta, Ribamar usufrui da confiança dos velhos amigos do Leme Tênis Clube, que volta e meia lhe emprestam dinheiro, com a certeza do retorno.
Entre um aperto e outro, Ribamar vai caindo, levantando e sobrevivendo. Sua vida sempre fluiu em suportável conformidade até descobrir que acabara de tomar um calote na transação de um três quartos em Copacabana, cujo comprador ele mesmo tinha arranjado. Vendo-se sem direção e necessitando de dinheiro para pagar os amigos do clube, Ribamar passa a suplicar ao proprietário que, apesar de ser um executivo do ramo farmacêutico, bem sucedido e quarenta anos mais novo, ambiciosamente ignora seus apelos.
Desesperado, Ribamar resolve ameaçá-lo por telefone, o resultado se traduzia em inúmeras risadas que deixavam o velho inconsolável. Afinal, quem se intimidaria com um senhor no fim da vida, magro, corcunda e ainda por cima íntegro e honesto?
Percebendo que seria impossível receber a comissão de 30 mil Reais que lhe era de direito, Ribamar contrata um advogado que sabiamente propõe um almoço entre as partes para que juntas possam chegar a um acordo comum.
12:30 – O almoço.
Todos compareceram ao restaurante Bar do Porto. Ribamar, sisudo como nunca, fez questão de carregar um olhar pra lá de ameaçador enquanto seu advogado mantinha-se concentrado em aplicar sua política típica dos que sabem resolver impasses. O Executivo, sonso como de costume, chegou mais tarde. Para surpresa de todos carregando seu filho grande e musculoso cuja feiúra é mais agressiva do que o ar de lutador que ele insistia em impor ao velho Ribamar no intuito de fazê-lo desistir da grana.
12: 40 – O advogado dá início à reunião:
- Bom, sabemos que por lei deveria haver um repasse de 5% sobre a venda do apartamento para o meu cliente. Gostaria de saber, senhores, como podemos resolver esta situação de uma forma amena, sem que seja necessário recorremos aos tribunais.
Eis que o musculoso filho interrompe o advogado:
- Em primeiro lugar, quero que o Sr. saiba que este velho caquético que você defende vem ameaçando meu pai e xingando minha família. Vim aqui apenas pra dizer a ele que se ele conti ...
Antes que o garotão prosseguisse a verborréia, é surpreendido pelo velho Ribas que puxa a toalha da mesa fazendo com que diversos pratos caiam ao chão. Todos se assustaram com a cena, menos o ancião, que se maninha incontrolável, rosnando feito um leão e dizendo que iria matar o garoto e o pai se não lhe pagassem o que lhe era devido. O moleque, assustado com a virilidade do "caquético", borrou-se de medo e danou a correr feito uma gazela amedrontada, deixando o próprio pai na mão. Percebendo que a situação se agravaria, o advogado entra em ação na tentativa inútil de baixar a testosterona do velho:
- Calma, Ribas! Não se resolve nada assim.
- Me segura, Dr., me segura que eu vou matar esse moleque sem vergonha.
- Mas desse jeito você não conseguirá seu dinheiro de volta.
- Aí é que tá, Dr. Não quero mais um centavo. Eu só quero matá-los devagar. Vou precisar dos seu serviços, Dr.
- Pra quê, Sr. Ribas?
- Pra me tirar de lá da cadeia porque eu vou fazer besteira.
Aproveitando-se de um leve momento de calmaria, o advogado saca R$ 400,00 e dá para o gerente do restaurante como forma de esquecer o incidente e pagar o prejuízo do quebra-quebra.
- Inexplicavelmente, quando menos se espera, o musculoso amedrontado retorna, dessa vez com quatro policiais que levaram todos para a delegacia. Ribas foi o último a prestar depoimento. O advogado, sabendo da língua afiada do velho, suplica em seus ouvidos:
- Ribas, meu filho, por Deus, não vá falar em matar e, por favor, negue todas as ameaças mais pesadas que você falou no restaurante porque você sabe que é da boca pra fora. Vai lá que o delegado tá te chamando. Da-se início ao interrogatório:
- O Sr. que é o Ribamar?
- Sim, seu Delegado.
- Quer dizer então que o senhor tentou agredir o fortão ali e o pai dele também?
- Positivo.
- hum... e diz aqui que o senhor jurou que iria matá-los, isso é verdade?
- Não. Anotaram errado.
- ah... bem logo vi. O Sr. parece ser um sujeito bom.
- Eu vou é esquartejá-los. Começarei atirando pela perna, depois joelhos, até chegar na cabeça e torturar um a um, mandando cada pedaço do corpo para o quinto dos infernos, de repente lá eles aprendam a ser dignos e honrados.
O Delegado imediatamente percebe que os policias estavam dando silenciosas risadas das declarações do velho e resolve por fim ao deboche através de um solidário tapa na mesa que os expulsou da sala. E o interrogatório prosseguiu, dessa vez de forma reservada.
- O Sr. teve muita coragem ao colocar os dois pra correr. Meu pai era corretor feito o senhor e há dois meses faleceu de infarto. Era um bom sujeito, cabeça dura e cheio de atitude como você, o problema é que fumava muito e adorava prostíbulos. Acredita que ele foi encontrado morto na cama de uma prostituta aqui do Leme?
- Ribamar começa a rir para surpesa do delegado e dispara: O Sr. é filho do Valtinho? Meu Deus, você era um guri. Como você cresceu... lembro bem de você e de seu irmão, duas crianças encapetadas, como o tempo passa.... depois o teu pai sumiu sem deixar notícias. Sempre mulherengo e misterioso. Garoto, teu pai e eu temos muitas histórias. Aquele era o safado com a alma mais cheia de vida que conheci. Era um homem intenso. Todos gostavam dele.
E a conversa prosseguia. O depoimento transformou-se num adorável bate papo. Do lado de fora, um inconformismo por parte do filho sarado e de seu pai ganancioso que não entendiam o volume daquelas gargalhadas que irradiavam a entediante delegacia. Três horas depois o Delegado chama todos os policiais e diz que vai sair com Ribamar para jantar.
O proprietário caloteiro, espantado com a cena, indaga em tom arrogante:
- Delegado, como está o procedimento? Vocês registraram a ameaça que esse velho louco fez?
- Não, infelizmente deu uma pane em nosso sistema, não há como registrar nada hoje, mas pode ficar tranqüilo, estou de olho em tudo, ouviu bem? Em tudo! Isso inclui você e o machão do seu filho. Deu pra entender bem ou vou ter que ser mais claro? Não me faça investigá-los.
- E assim a tarde se encerrou. Ribas foi salvo por um triz e ainda recebeu um belo jantar. No dia seguinte, acordou na intenção de ir ao banco tentar negociar sua dívida quando, de repente, encontra um chegue do proprietário no valor de cinqüenta mil Reais com a seguinte informação:
Segue o cheque do desgraçado. Os juros são um presente meu.
Você traz alguma razão para eu crer em todo esse lixo.
Obrigado. Eles não irão importuná-lo.
Aceita uma sinuca na quarta que vem?
Queria ouvir mais histórias sobre meu pai.
Um grande abraço,
Delegado Oliveira.
Nunca se intimidou com os avanços tecnológicos. Sabe lidar muito bem com suas limitações. Basta-lhe a velha máquina de escrever, uma agenda rigorosamente controlada e um sapato que não lhe cause calos para fazê-lo honrar as penosas contas do mês. Quando a situação aperta, Ribamar usufrui da confiança dos velhos amigos do Leme Tênis Clube, que volta e meia lhe emprestam dinheiro, com a certeza do retorno.
Entre um aperto e outro, Ribamar vai caindo, levantando e sobrevivendo. Sua vida sempre fluiu em suportável conformidade até descobrir que acabara de tomar um calote na transação de um três quartos em Copacabana, cujo comprador ele mesmo tinha arranjado. Vendo-se sem direção e necessitando de dinheiro para pagar os amigos do clube, Ribamar passa a suplicar ao proprietário que, apesar de ser um executivo do ramo farmacêutico, bem sucedido e quarenta anos mais novo, ambiciosamente ignora seus apelos.
Desesperado, Ribamar resolve ameaçá-lo por telefone, o resultado se traduzia em inúmeras risadas que deixavam o velho inconsolável. Afinal, quem se intimidaria com um senhor no fim da vida, magro, corcunda e ainda por cima íntegro e honesto?
Percebendo que seria impossível receber a comissão de 30 mil Reais que lhe era de direito, Ribamar contrata um advogado que sabiamente propõe um almoço entre as partes para que juntas possam chegar a um acordo comum.
12:30 – O almoço.
Todos compareceram ao restaurante Bar do Porto. Ribamar, sisudo como nunca, fez questão de carregar um olhar pra lá de ameaçador enquanto seu advogado mantinha-se concentrado em aplicar sua política típica dos que sabem resolver impasses. O Executivo, sonso como de costume, chegou mais tarde. Para surpresa de todos carregando seu filho grande e musculoso cuja feiúra é mais agressiva do que o ar de lutador que ele insistia em impor ao velho Ribamar no intuito de fazê-lo desistir da grana.
12: 40 – O advogado dá início à reunião:
- Bom, sabemos que por lei deveria haver um repasse de 5% sobre a venda do apartamento para o meu cliente. Gostaria de saber, senhores, como podemos resolver esta situação de uma forma amena, sem que seja necessário recorremos aos tribunais.
Eis que o musculoso filho interrompe o advogado:
- Em primeiro lugar, quero que o Sr. saiba que este velho caquético que você defende vem ameaçando meu pai e xingando minha família. Vim aqui apenas pra dizer a ele que se ele conti ...
Antes que o garotão prosseguisse a verborréia, é surpreendido pelo velho Ribas que puxa a toalha da mesa fazendo com que diversos pratos caiam ao chão. Todos se assustaram com a cena, menos o ancião, que se maninha incontrolável, rosnando feito um leão e dizendo que iria matar o garoto e o pai se não lhe pagassem o que lhe era devido. O moleque, assustado com a virilidade do "caquético", borrou-se de medo e danou a correr feito uma gazela amedrontada, deixando o próprio pai na mão. Percebendo que a situação se agravaria, o advogado entra em ação na tentativa inútil de baixar a testosterona do velho:
- Calma, Ribas! Não se resolve nada assim.
- Me segura, Dr., me segura que eu vou matar esse moleque sem vergonha.
- Mas desse jeito você não conseguirá seu dinheiro de volta.
- Aí é que tá, Dr. Não quero mais um centavo. Eu só quero matá-los devagar. Vou precisar dos seu serviços, Dr.
- Pra quê, Sr. Ribas?
- Pra me tirar de lá da cadeia porque eu vou fazer besteira.
Aproveitando-se de um leve momento de calmaria, o advogado saca R$ 400,00 e dá para o gerente do restaurante como forma de esquecer o incidente e pagar o prejuízo do quebra-quebra.
- Inexplicavelmente, quando menos se espera, o musculoso amedrontado retorna, dessa vez com quatro policiais que levaram todos para a delegacia. Ribas foi o último a prestar depoimento. O advogado, sabendo da língua afiada do velho, suplica em seus ouvidos:
- Ribas, meu filho, por Deus, não vá falar em matar e, por favor, negue todas as ameaças mais pesadas que você falou no restaurante porque você sabe que é da boca pra fora. Vai lá que o delegado tá te chamando. Da-se início ao interrogatório:
- O Sr. que é o Ribamar?
- Sim, seu Delegado.
- Quer dizer então que o senhor tentou agredir o fortão ali e o pai dele também?
- Positivo.
- hum... e diz aqui que o senhor jurou que iria matá-los, isso é verdade?
- Não. Anotaram errado.
- ah... bem logo vi. O Sr. parece ser um sujeito bom.
- Eu vou é esquartejá-los. Começarei atirando pela perna, depois joelhos, até chegar na cabeça e torturar um a um, mandando cada pedaço do corpo para o quinto dos infernos, de repente lá eles aprendam a ser dignos e honrados.
O Delegado imediatamente percebe que os policias estavam dando silenciosas risadas das declarações do velho e resolve por fim ao deboche através de um solidário tapa na mesa que os expulsou da sala. E o interrogatório prosseguiu, dessa vez de forma reservada.
- O Sr. teve muita coragem ao colocar os dois pra correr. Meu pai era corretor feito o senhor e há dois meses faleceu de infarto. Era um bom sujeito, cabeça dura e cheio de atitude como você, o problema é que fumava muito e adorava prostíbulos. Acredita que ele foi encontrado morto na cama de uma prostituta aqui do Leme?
- Ribamar começa a rir para surpesa do delegado e dispara: O Sr. é filho do Valtinho? Meu Deus, você era um guri. Como você cresceu... lembro bem de você e de seu irmão, duas crianças encapetadas, como o tempo passa.... depois o teu pai sumiu sem deixar notícias. Sempre mulherengo e misterioso. Garoto, teu pai e eu temos muitas histórias. Aquele era o safado com a alma mais cheia de vida que conheci. Era um homem intenso. Todos gostavam dele.
E a conversa prosseguia. O depoimento transformou-se num adorável bate papo. Do lado de fora, um inconformismo por parte do filho sarado e de seu pai ganancioso que não entendiam o volume daquelas gargalhadas que irradiavam a entediante delegacia. Três horas depois o Delegado chama todos os policiais e diz que vai sair com Ribamar para jantar.
O proprietário caloteiro, espantado com a cena, indaga em tom arrogante:
- Delegado, como está o procedimento? Vocês registraram a ameaça que esse velho louco fez?
- Não, infelizmente deu uma pane em nosso sistema, não há como registrar nada hoje, mas pode ficar tranqüilo, estou de olho em tudo, ouviu bem? Em tudo! Isso inclui você e o machão do seu filho. Deu pra entender bem ou vou ter que ser mais claro? Não me faça investigá-los.
- E assim a tarde se encerrou. Ribas foi salvo por um triz e ainda recebeu um belo jantar. No dia seguinte, acordou na intenção de ir ao banco tentar negociar sua dívida quando, de repente, encontra um chegue do proprietário no valor de cinqüenta mil Reais com a seguinte informação:
Segue o cheque do desgraçado. Os juros são um presente meu.
Você traz alguma razão para eu crer em todo esse lixo.
Obrigado. Eles não irão importuná-lo.
Aceita uma sinuca na quarta que vem?
Queria ouvir mais histórias sobre meu pai.
Um grande abraço,
Delegado Oliveira.
5 comentários
Não sei pq, mas me lembrou o que vc contava sobre seu pai, em outros posts.
Ah, as coincidências da vida ... e o valor da verdade .... tipo a justiça né Cabecinha: tarda mais não falha !
Quem dera o mundo estar assim:sempre verdadeiro e cheio de boas coincidências ! :)
Um de seus melhores. Cheira a causo verdadeiro. Impressionante como com um toque aqui e outro ali, acaba sendo a vida que dita a literatura. A diferença pra quem faz isso por profissão são os cheques da editora batendo na conta.
Caro Cabeça,
Vejo que sua crônica está tomada pelo saudosismo. Assim como você. Que vive a sua consciência entre o peixoto e a ipanema das atitudes.
Mas é interessante a crônica.
Tomado pela acidez, violência e palavras duras, vejo um alto nível de fantasia em sua crônica.
Esses delegados não existem mais. O fortão teria batido no velho. O velho não venderia esse apartamento e finalmente, o velho não recebeu esse dinheiro.
forte abraço
Sabemos que quem conta um conto aumenta um ponto, mas mesmo assim este é adorável! (rs) Segue aí uma crônica!
A ÉTICA DE NORMINHA (VICTOR COLONNA)
Norminha, como muitos de vocês devem imaginar, é a fogosa personagem da novela “Caminho das Índias”.
Sensual, infiel, ciumenta, sedutora, ela é, sem dúvida, a personagem mais interessante da morna trama da emissora global.
Dona de uma personalidade particularíssima: é infiel, porém não desleal. Ama (à sua maneira) seu marido, cuida dele, faz para ele os pratos preferidos, morre de ciúmes dele, mas na calada da noite sai para encontrar-se com outros homens. Ama somente um homem, mas não é mulher de um homem só.
Pois bem: no capítulo de segunda-feira passada, a moçoila deu um show. Ao perceber que Suellen (seu antigo desafeto na trama) estava sendo atacada por um grupo de pitboys, não pensou duas vezes; pegou a arma do marido, atirou para o alto e dispersou o bando de covardes.
Norminha mostrou que devemos defender até os nossos desafetos. Não porque gostamos deles, mas por uma questão de justiça.
Mostrou que para sermos verdadeiramente humanos devemos ficar acima de nossas simpatias. Pois defender quem se ama é muito simples. Difícil, no mundo egoísta em que vivemos, é defender quem não se gosta.
Difícil, porém não impossível, como mostrou a personagem magnificamente vivida por Dira Paes, neste verdadeiro show de ética!